quarta-feira, agosto 03, 2016



O Último Grau de Perfeição Costuma Ser o Primeiro na Ordem da Corrupção

Os que crêem que sabem mais que os outros, ou se enganam, ou se persuadem bem: se se enganam, o mesmo engano lhes serve de ludíbrio; se se persuadem bem, a vaidade da ciência os faz tão ferozes, e severos, que ficam sendo insuportáveis. A ciência humana comummente se reveste de um ar intratável; imagem tosca, desagradável, e impolida. A especulação traz consigo um semblante distraído, e desprezador; quanto melhor é uma ignorância educada. Toda a ciência se corrompe no homem; porque este é como um vaso de iniquidade, que tudo o que passa por ele, fica inficionado: as coisas trabalham por se acomodarem ao lugar donde estão, e por tomarem dele as propriedades, só com a diferença, de que as cousas boas fazem-se más, porém estas não se fazem boas. Nas sociedades, o mal é mais comunicável; a perdição é mais natural; o que é bom, mais depressa tende a perder-se, que a melhorar-se; os frutos da terra quando chegam ao estado de maturidade, nem persistem nele, nem retrocedem para o estado de verdura; antes caminham até que totalmente se arruinem; por isso o último grau de perfeição, costuma ser o primeiro na ordem da corrupção.

Matias Aires, in 'Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens e Carta Sobre a Fortuna'


Dies Irae

Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!

Miguel Torga, in 'Cântico do Homem' 



Nada há de mais ruidoso - e que mais vivamente se saracoteie com um brilho de lantejoulas - do que a política.

Eça de Queirós

MARCIA TIBURI: Prótese da fé
Para pensar a fé no capitalismo

A racionalidade ocidental nunca foi ingênua. Seu projeto estabeleceu-se na história como projeto de poder. A participação da filosofia se deu no estabelecimento do princípio de identidade que, desde Aristóteles, funciona como núcleo de toda lógica, toda ética e toda política. O princípio de identidade que reduz o Outro ao eu, o diferente ao mesmo, forjou-se também em contato íntimo com a teologia judaico-cristã – com a ideologia de um Deus único, fruto de um pensamento único e absoluto – comprometida até o fim com a negação do Outro, inclusive a negação de Cristo que, em si mesmo, afirmava o Outro. Esse compromisso se deu em função de seu casamento com o poder e sua versão econômica, reducionista e fria que é o capital, o absoluto que tudo submete e subjuga.

EDIÇÃO 213 DA REVISTA CULT.
http://revistacult.uol.com.br/home/2016/06/protese-da-fe/




Será que nada muda nada?



   Estas linhas objetivam uma sucinta reflexão sobre a possibilidade de uma ação política efetivamente transformadora e reformadora após os últimos escândalos políticos, envolvendo diversos partidos brasileiros, dentre os quais podemos destacar o PMDB, PSB, SDD, PTB, PP, PSDB e também o Partido dos Trabalhadores.

   A estrutura do movimento de ascensão e queda do PT não é muito distinta da estrutura das antigas tragédias gregas. O herói trágico, que precisa necessariamente ser um mortal como os demais, alcança, depois de uma árdua luta contra forças que aparentemente lhe eram muito superiores, a posição mais elevada dentro da hierarquia social, como nos casos de Édipo e Lula.

   Depois de um breve período de plena felicidade, a tragédia se configura quando o herói se dá conta de que, apesar de sua firme intenção de não cometer os erros a que estava predestinado, ele acaba de qualquer jeito por cometê-los. A tragédia, nessa concepção tradicional, alcança o ápice no momento que Aristóteles chamava de “momento do reconhecimento”, em que o herói se dá conta de que as estruturas que o próprio fato de sua ascensão havia aparentemente subvertido na verdade estiveram operantes ao longo de todo o seu percurso, determinando-lhe os passos sem que ele pudesse ter consciência disso. Assim como Édipo, nesse momento, aparece a si próprio como uma marionete do Destino, ou, numa chave de interpretação psicanalítica, de seus desejos inconscientes, Lula, aparece como a marionete de uma estrutura política, social e econômica que só ratificou o seu poder ao permitir que esse ex-operário chegasse a ocupar a presidência da República.

   A questão com a qual a queda do PT irremediavelmente nos confronta é a seguinte: se nem mesmo Lula, Dilma e os partidos de esquerda aglutinados em torno do PT foram capazes de alterar as estruturas seculares que respondem pela desigualdade social no Brasil, se até mesmo um partido de esquerda, para chegar ao poder e exercer o poder, precisou se “endireitar”, reproduzindo as mesmas velhas práticas que sempre combateu, será que o Brasil está fadado a ser o “país do passado” que sempre foi, um país escravocrata dominado por uma pequena elite que só se ocupa em perpetuar os seus antigos privilégios?

   Se mesmo figuras quase míticas da resistência ao poder constituído sucumbiram diante desse mesmo poder no momento em que o tiveram nas mãos, será que alguém é capaz de efetivamente transformar o que quer que seja?

     Em suma: até que ponto podemos superar essa melancolia que, como uma nova peste, ameaça arrastar-nos todos à convicção niilista de que nada muda nada, à convicção de que nenhuma ação política racionalmente articulada tem o poder de alterar substancialmente as estruturas seculares do nosso Brasil?

 “A classe média é sadomasoquista”, afirma o sociólogo Jessé Souza
José Carlos Fernandes entrevista Jessé Souza, sociólogo, presidente do Ipea.
ENTREVISTA [11/03/2016]  


Os últimos seis meses foram de tormentas para o sociólogo potiguar Jessé Souza, 55 anos. Sua obra – até então festejada nos redutos acadêmicos – tem saído das estantes direto para as mãos daqueles que procuram uma explicação para o caos econômico e político em que se meteu o país. O que diz nem sempre agrada. Algumas polêmicas rendem réplicas e tréplicas nas páginas dos jornais, acrescidas de golpes baixos nas redes sociais e menções nas apaixonadas rinhas políticas da era Lava Jato. “Até agora, só me xingaram. Estou à espera de um debate de verdade”, provoca o autor de A tolice da inteligência brasileira, A ralé brasileira e de Os batalhadores brasileiros.

Entre suas teses que mexem com o juízo dos detratores está a de que o maior problema do Brasil não é a corrupção – como proclamam multidões em fúria, alguns decibéis acima do normal –, mas a desigualdade. Séculos de convivência com diferenças oceânicas entre ricos e pobres teriam naturalizado a violação de direitos mais básicos e o sistema de privilégios para o 1% de endinheirados. Nada de novo, não fosse o desdobramento de sua afirmação.

Para Souza, paralelo às redes de indignação o que pulsa é o desejo de desmanchar políticas sociais nascidas de diminuir as distâncias entre os brasileiros. Não vem de hoje. Foi assim com Vargas, com Jango e agora com Dilma. As classes médias, afirma, se rendem ao discurso moralizador sem perceber que estão sendo usadas pelos donos do capital. Julgando se diferenciar dos corruptos, nada mais estariam fazendo do que o jogo dos grupos que reivindicam um Estado que funcione a seu favor. Ao bater as panelas da moralidade, entende, os médios alimentam a ilusão de que estão mais próximos das elites, com as quais estabelecem um misto de admiração e ressentimento. “É uma relação sadomasoquista”, resume.

Jessé Souza – atual presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) – esteve em Curitiba há duas semanas, para uma aula magna do curso de Direito da UFPR. As 200 cadeiras do auditório do Prédio Histórico foram insuficientes para as fileiras de interessados em ouvi-lo. A maioria teve de se contentar com telões. É tudo novo para o pesquisador, mas não inesperado. Ao longo de 20 anos, ele se entregou a uma tarefa quase insana– desmontar o olhar sobre o Brasil e os brasileiros cunhado por papas como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque e Raymundo Faoro, autores que a seu ver se prestam a reforçar, sem bases científicas, o sentimento de inferioridade nacional. Joga água fervendo em máximas como a do brasileiro cordial, dado a dar jeitinho em tudo e a levantar vantagem. “Essas ideias são construções que só servem para desencadear nosso complexo de vira-lata”.

Confira trechos de entrevista dada à Gazeta do Povo:

Como o senhor lida com as oposições raivosas a suas teses?

Foi difícil para mim no campo universitário, mas a rejeição, de algum modo, me deu força para continuar. Ainda não recebi nenhuma crítica argumentativa. Não houve debate. Ganhei foi xingamentos. Aguardo algo que seja de alto nível, o que o Brasil precisa muito nessa hora. Estamos diante de um ponto importante – saber como a questão da corrupção foi construída. Houve uma naturalização de que esse é o grande impasse do Brasil. Nosso complexo de vira-lata foi despertado.

Onde quer chegar?

Quero mostrar que é uma mentira o que os intelectuais e as ciências sociais dizem sobre o Brasil. Com raras exceções, o que afirmam é que o grande problema é a corrupção. Isso é uma manipulação. Nada prova que nosso país seja mais corrupto que os EUA. Minha tese: os intelectuais montaram uma tropa de choque para justificar a existência de menos de 1% de endinheirados, que mandam e desmandam na Nação. A corrupção existe em todo lugar, não é uma jabuticaba. O interesse em dramatizar o tema é um mecanismo dos mais ricos para imbecilizar a sociedade. Só as elites ganham nessa luta de classes invisível.

O termo “golpe de direita” envelheceu?

Não usaria nesse caso categorias como direita ou esquerda. Diria que é um país em que meia dúzia de endinheirados mandam, compram parte do Congresso, põem a imprensa no bolso, fazem o que querem, como os grandes senhores de escravos. São espertos. Montaram uma tradição intelectual para legitimar esse modelo.
O tema da corrupção só entra em pauta no momento em que a elite econômica perde o controle do Estado. A classe média é a que mais se torna imbecil. É explorada por esse grupo e depois vai defendê-lo. Que diabos ganha? A classe média faz papel de tola. É explorada por juros, impostos, sai às ruas. Tem a ilusão de estar lutando pela moralidade, de ser mais decente.
É uma relação sadomasoquista, uma “gratificação substitutiva”, como diria Freud. Infantil, esse grupo imita os ricos, pelos quais tem ressentimento e admiração. É uma classe que se julga da Noruega. Preocupa-se com a morte das baleias, mas não se sensibiliza com a miséria a sua volta.

Se não é a corrupção, qual o nosso problema?

Nosso problema tem a ver com a classe de excluídos, que estudei em A ralé brasileira: quem é e como vive (2009). Uso o termo “ralé” para provocar e mostrar que a classe média que se diz guardiã da moralidade explora os excluídos. Usa-os para cuidar dos filhos, para comer pizza quentinha, matando dois motoboys por dia. Quero pôr a classe média no espelho: “Olhe o que você constrói, quem você abandona, bem você, que tira onda de campeão da moralidade”. A classe média vampiriza esses trabalhadores. É farisaica. E a imprensa é o braço principal dessa elite que nos dá sua dose de veneno midiático a cada dia. Dizemos que o problema é a corrupção, mas ao mesmo tempo mantemos uma das sociedades mais perversas e desiguais do planeta.

O senhor foi formado nas ideias de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Hollanda, Raymundo Faoro. Por que se estranhou com seus mestres?

Estudei esses autores com obsessão, dois-três anos cada um, quando estava na Alemanha, na década de 1990. Em especial o Gilberto Freyre. É o mais inteligente e o que mais me intrigou, por ser uma espécie de criador do Brasil moderno. Queria ter uma visão pessoal sobre o mundo e a sociedade brasileira. Até que me dei conta de que estava entrando na esparrela que o Freyre havia criado. Fiquei quase um mês paralisado. Meu projeto acabou ali. Só me restava fazer a crítica desse pessoal. Como os demais brasileiros, eu tinha sido educado para me ver como um povo vira-lata, emocional, que age pelo coração. Estava diante da chance de renovar e reinterpretar o Brasil.
Não somos tão filhos de Portugal quanto imaginamos...

Dizer isso faz parte do engodo. Virou senso comum. Algumas afirmações são ridículas, não existe outra palavra. Raymundo Faoro diz que a corrupção vem desde Portugal, mas não havia corrupção lá. Como o rei poderia roubar o que era dele?

A noção de soberania popular, que nos permite falar em corrupção, começa dois séculos depois. A questão é que se acredita nisso. O que molda as pessoas são as instituições e a instituição principal do Brasil, a partir 1532, é a Escravidão – que não existia em Portugal. Os modelos de família, de Justiça, de política, de economia são montados pela Escravidão, aqui de maneira distinta de Portugal. Lá a Igreja era mais importante do que os senhores e limitava o poder senhorial. Já entre nós os senhores podiam tudo, o que se mantém até hoje, de alguma maneira.
Permita lembrar algo curioso – o que os operadores de telemarketing, uma das categorias que aparecem em suas pesquisas – têm a dizer sobre o Brasil?
Tratei desse grupo num livro específico [ Os batalhadores brasileiros, 2012], ao estudar os que foram alçados de modo errôneo à chamada “nova classe média”. Queria compreendê-los. Percebi que estávamos diante de um fenômeno – o surgimento de uma nova classe trabalhadora, precária, a céu aberto, sem privilégio. O telemarketing tem a ver com as mudanças tecnológicas, com o desaparecimento de postos de emprego e com a exploração total do trabalhador. Os atendentes atuam em condições exaustivas. Retira-se tudo deles.

Como definiria o que chama de “nova classe trabalhadora”?

É pobre. A humilhação para essa gente é tão presente quanto a falta de dinheiro. É humilhada nos serviços públicos, mas também por nós. Mudamos de lado na rua quando os vemos. É um ser humano sem dignidade, esquecido, sem chances digna de enfrentar competição. O novo trabalhador foi montado para estar nessa situação. De positivo, a admirável resiliência. Com o pouco que lhe foi dado, dinamizou a economia, deu impulso ao desenvolvimento, como não acontecia havia 60 anos. Fico muito impressionado com a resposta que a população deu diante do pequeno estímulo que recebeu.

Diz-se que na última década o desenvolvimento se deu à custa do consumo de carros pelos mais pobres, por exemplo, mas não da cultura. Concorda?

Diria duas coisas. Qual é o problema de os pobres começarem a consumir? Para pobres ou não, o consumo é parte importante da cidadania. Tem a ver com direitos. O acesso a bens de consumo torna a vida boa, agradável. Em segundo lugar, estudos do Ipea mostram que nos últimos dez anos modificou a maneira como as pessoas imaginam a vida. Vivemos uma pequena revolução, porque também aumentou o capital cultural, antes concentrado na classe média. Com mais consumo em geral, as famílias pobres expandiram seus horizontes. Investem mais em educação, passam a perceber o futuro, a pensar em como sair de onde estão.



“A fotografia deve ser política e poética”: entrevista com o paraguaio Fredi Casco

Publicado em 16 de junho de 2016.
http://revistazum.com.br/radar/forum-latino-fredi-casco/


O paraguaio Fredi Casco, coordenador do IV Fórum Latino-Americano de Fotografia ao lado de Iatã Cannabrava, abre hoje a série de três entrevistas da cobertura do evento pela ZUM. O artista plástico, poeta e editor fala de seu trabalho e afirma que o Fórum serve muito mais para suscitar novas perguntas do que para responder aquela que é tema desta edição – “A Fotografia como Pensamento: É possível que o chamado ato fotográfico – ou, mais ainda, a imagem fotográfica – exista, permaneça ou circule, como ocorre com um conceito ou uma ideia?”.


Da série “O retorno dos bruxos vol. 1”, 2005

Paula Sacchetta: Eu gostaria que você começasse falando da sua trajetória. Como um artista visual e poeta foi parar na fotografia?

Fredi Casco: Eu venho da literatura, mais especificamente da poesia. Foi em um momento no fim dos anos 1990, quando já não encontrava mais imagens nas palavras, que comecei a trabalhar com as imagens propriamente ditas. E aí passei a trabalhar sobretudo com vídeo e fotografia dentro da arte contemporânea. A linguagem da fotografia me interessou pela possibilidade de se poder construir uma imagem técnica. A partir daí, segui meu trabalho como artista, abordando as várias autolinguagens dentro da arte.
Tenho, já há algum tempo, certa militância no meio da fotografia. Primeiro como editor de uma revista no Paraguai, depois como cofundador, ao lado de Jorge Sáenz, do festival de fotografia El Ojo Salvaje e também como membro do comitê editorial da revista Sueño de la Razón. Minha primeira aproximação com o universo da fotografia latino-americana ou pelo menos com essa rede que começava a se formar foi no I Fórum Latino-Americano, que aconteceu aqui em São Paulo, em 2007. Participei da exposição coletiva Sutil violento, que foi curada pelo Iatã. Para mim, foi uma descoberta. Até então eu estava limitado ao circuito da arte contemporânea, sem tanto acesso ao meio fotográfico. Foi meu primeiro encontro com fotógrafos e ativistas da fotografia.

Por que você usa termos como militância e ativismo?

Diferentemente do que acontece na arte contemporânea, na qual os artistas trabalham muito de forma solitária e se encontram nas bienais ou no circuito das galerias, a fotografia está menos ligada ao mercado. Parece-me, assim, que há uma rede de colaboradores que se conforma, pessoas que estão tentando criar conexões sólidas, e isso já data de muito tempo atrás. Os antecedentes desta rede foram os Colóquios do México, nos anos 1970, e isso foi se solidificando com o tempo. De modo que vejo uma militância mesmo nessas conexões entre os fotógrafos e os produtores da fotografia na América Latina. É algo que não vejo com a mesma intensidade e eficácia em outras partes do mundo, esse desejo de se juntar para pensar o que está sendo feito por aqui. E o melhor – algo muito importante, a meu ver – é que essas iniciativas não vêm de lugares institucionais ou de poder, e sim principalmente dos próprios fotógrafos.


Da série “Foto zumbi”, 2011

Em seu trabalho como artista plástico, você desenha em cima de documentos do século XIX, recupera fotos antigas, faz colagens com jornais já amarelados pelo tempo. Por que essa busca pelo arquivo, esse retorno ao passado?

Um dos meus interesses em trabalhar com a fotografia, do meu lugar de artista, era a possibilidade de poder interrogar a própria fotografia não só como imagem, mas também como material, documento, matéria. Poder indagar a história de uma fotografia – perguntar a ela sobre sua história e sobre a história geral, e não apenas no que diz respeito à imagem representada que aparece ali. É uma busca pela história do meu próprio país, pela história da América Latina, mas, sobretudo, pela história política. Walter Benjamin dizia que o historiador deveria ser arqueólogo e um pouco trapeiro. Pesquisar nos documentos fotográficos políticos do meu país é fazer isso, é ter a possibilidade de pentear a história a contrapelo. Pentear de uma maneira que as pulgas saltassem.


E o que são essas pulgas que você quer fazer saltar?

São os feitos marginais da história, os momentos esquecidos da história oficial. Porque aqui na América Latina há uma história oficial política que oculta mais do que mostra. Então eu quis trabalhar sobre documentos marginais, ou, melhor dizendo, laterais, esquecidos e secundários. Porque aí existe a possibilidade de aparecerem pequenas luzes que podem ter sido apagadas pelo grande refletor da história oficial.


Essa busca arqueológica em documentos e arquivos antigos é política? E a fotografia, deve ser política?

A fotografia deve ser política e poética. Esse é um dos aspectos mais potentes da fotografia e é exatamente por isso que hoje em dia o mundo da arte contemporânea e do pensamento estão tão interessados na fotografia, por esse caráter político, por essa possibilidade de se tomar posição. O fotógrafo toma posição, fisicamente até, para documentar um feito. É como uma metáfora: olha através da objetiva, toma posição e, ao tomar posição, deixa de ser objetivo. Mas toma posição a partir de uma distância, e isso é importante. É o momento político do fotógrafo. Eu acredito que esse momento seja essencial em um cenário político latino-americano no qual as democracias estão débeis e, mais que isso, são permanentemente ameaçadas. Temos histórias de violência política recente e de violência social evidente. A arte na América Latina deve ser e é consciente disso.
Podemos recontar histórias, ou mesmo recriá-las, a partir de documentos antigos? O documento determina algo ou é apenas uma versão da história?

Acredito que há um velho engano sobre a ideia do que é fotografia, que vem dessa ligação inicial da fotografia com a ciência, com a evidência. E que não tem só a ver com a questão do arquivo, mas sobretudo com a fotografia documental. Essa superstição da verdade fotográfica já foi suficientemente desmontada. No entanto, me parece interessante o documento fotográfico, o arquivo, não para mostrar o oculto, mas para trazer à luz, como falei, coisas que foram classificadas, deixadas de lado e manipuladas pelas versões da história. Para encontrar outras representações que talvez estejam nesses relatos. Não para buscar a verdade, mas para virar o tabuleiro do relato e do discurso histórico construído.


O fotógrafo já é hoje, também, alguém que faz outras coisas, que propões outras formas e que apresenta seu trabalho em outros meios?

O fotógrafo hoje não é mais apenas aquele que faz o clique. A fotografia tem sido uma das linguagens que mais conseguiu ultrapassar suas fronteiras e que foi atravessada por outros campos do conhecimento. Ela tem essa característica de ser ciência e arte. Ser documento, e, ao mesmo tempo, poesia. O fotógrafo hoje entende qual é a linguagem da fotografia e como pode aplicá-la em outras instâncias. Fotografia é a escrita com luz, e essa definição, por si só, já amplia os campos de ação do fotógrafo e abre outras possibilidades. O fotógrafo não se reduz mais ao sujeito que usa aquela caixa: ele olha para o mundo de uma forma que está relacionada à fotografia. To click or not to click, that is the question, é uma pergunta que fazemos, um pouco à guisa de piada, usando como referência a famosa frase de Shakespeare e o Manifesto Antropofágico. Perguntas como essa são as que nos levam a propor um tema como o do Fórum deste ano, colocando o fotógrafo num lugar não somente de documentarista e artista, mas também de pensador.


“É possível que o chamado ato fotográfico – ou, mais ainda, a imagem fotográfica – exista, permaneça ou circule, como ocorre com um conceito ou uma ideia?” é a pergunta tema do Fórum deste ano. Por que essa escolha? A resposta ainda não está dada?

A fotografia continua em muitos aspectos sendo considerada documento, sendo apenas a ilustração ou representação de um pensamento ou de uma ideia, algo acessório. Uma imagem dialética não pode ser pensamento ou gerar pensamento por si, em vez de só acompanhar ideias e conceitos? É uma pergunta que nos interessa e nos tocou fazer. Será que a câmera ou a imagem – ou o arquivo – podem gerar conhecimento sem estar necessariamente atados a um pensamento em palavras? Essa pergunta não está respondida totalmente. Temos algumas respostas soltas, elementos que surgem para respondê-la, propostas de pensadores e teóricos que tentam abordá-la, mas ela certamente ainda está em aberto. Há indícios de que o fotógrafo já não seja somente alguém que registra objetivamente os fatos, mas alguém que intervém na realidade e que pode pensar os fatos do presente e do passado. Mais do que respondida durante o Fórum, a pergunta vai ser debatida. Esperamos que possamos aqui debater, refletir e, sobretudo, formular mais e novas perguntas.///


Paula Sacchetta é jornalista e documentarista. Escrevia aos domingos sobre fotografia para o caderno Aliás, do jornal O Estado de S. Paulo. Atualmente trabalha com documentários na Mira Filmes.

segunda-feira, agosto 01, 2016


A história da máscara do Anonymous

É bem provável que você já tenha ouvido falar do Anonymous, um grupo ativista que busca estabelecer uma liberdade online e também no mundo real, através de ações que buscam incentivar as pessoas a lutarem por interesses coletivos. O grupo tem como uma de suas marcas uma máscara que transparece certo ar de mistério, e que foi vista por muitos no filme “V de Vingança”, que foi produzido e roteirizado  por Andy Wachowski e Lana Wachowski (os irmãos que criaram a trilogia MATRIX). O filme dos irmãos Wachowsky é uma adaptação do romance homônimo “V FOR VENDETTA”, a graphic novel escrita por Alan Moore e desenhada por David Lloyd, e que foi publicada entre 1982 e 1988, no Reino Unido. A história do romance se passa em um futuro distópico, onde um partido com fortes tendências totalitárias consegue chegar ao poder após uma guerra nuclear, e inicia um regime fascista sobre todo o Reino Unido; a mídia é controlada, campos de concentração para minorias sexuais e raciais são criados, e agentes especiais são recrutados para fiscalizar o cumprimento de um toque de recolher. Nesse cenário opressor, surge um homem vestido de preto e usando uma máscara estilizada, que inicia várias ações anarquistas a fim de desestabilizar o governo…

Uma das maiores fontes de inspiração dos autores, foi o governo conservador da primeira-ministra Margaret Thatcher (1979 a 1990), que ficou conhecida como “Dama de Ferro”, por conta de suas rígidas posições em relação aos sindicatos dos trabalhadores, por suas opiniões sobre a União Soviética, e pelas várias privatizações de empresas realizadas nos primeiros anos de seu governo. No entanto, fica evidente também a inspiração da graphic novel na figura histórica de Guy Fawkes.
Guy Fawkes (também conhecido como Guido) foi um soldado inglês católico que participou da “Conspiração da Pólvora” (Gunpowder Plot), que tinha como objetivo explodir o parlamento britânico durante uma sessão, em 5 de novembro de 1605. A intenção da conspiração liderada por Robert Catesby, era iniciar um levante católico contra a repressão do rei protestante Jaime I, matando-o junto de outros parlamentares protestantes, através da explosão que fora planejada. Guy Fawkes, que era um perito em explosivos, colocou para detonar 36 barris de pólvora sob o prédio do parlamento, mas por conta de uma informação vazada Fawkes acabou sendo descoberto e preso antes que o plano fosse posto em prática.

Guy Fawkes

Guy Fawkes foi preso, torturado, interrogado e então condenado à forca, acusado de traição e tentativa de assassinato dos parlamentares e do rei. A conspiração da Pólvora havia fracassado.
A captura de Fawkes é celebrada até os dias de hoje pelo povo inglês, na chamada “Noite das Fogueiras” (Bonfire Night), realizada em todo dia 5 de novembro. Nesse dia o rei ou a rainha participa de uma sessão especial no parlamento, e o subsolo do prédio é tradicionalmente revistado; costuma-se soltar muitos fogos de artifício e nas ruas as pessoas fazem bonecos representando a figura de Fawkes e ao fim da noite o queimam.
Apesar do soldado ser tido como um “traidor” aos olhos do povo inglês, Moore e Lloyd não tiveram receio de colocar um personagem inspirado na figura histórica de Fawkes para protagonizar sua obra. Mesmo sendo vista com maus olhos por alguns, aquela figura representa a luta do povo contra o totalitarismo e a opressão de governos e instituições. E justamente por conta da trama, que envolve a retomada do poder pela população, que o Anonymous decidiu utilizar a máscara estilizada de Fawkes para representar seus ideais de liberdade, que por ironia, são também tidos (por alguns) como atos terroristas – assim como ocorreu na ficção.
Da próxima vez que você ver aquele rosto misterioso com bigodes e um sorriso sutilmente sarcástico, lembre-se que por trás dela não existe apenas a inspiração vinda de um filme de ficção. Por trás dela há história, ideias, conceitos, e, sobretudo, pensamentos sobre liberdade e justiça.
Remember, remember the fifth of November,
Gunpowder treason and plot.
We see no reason
Why gunpowder treason
Should ever be forgot!
Guy Fawkes, guy, t’was his intent
To blow up king and parliament.
Three score barrels were laid below
To prove old England’s overthrow.
By god’s mercy he was catch’d
With a darkened lantern and burning match.
So, holler boys, holler boys, Let the bells ring.
Holler boys, holler boys, God save the king.


And what shall we do with him?
Burn him!

A política é a arte de procurar problemas, encontrá-los em todos os lados, diagnosticá-los incorretamente e aplicar as piores soluções.

Groucho Marx

domingo, julho 24, 2016



A maior parte dos homens, em política como em tudo, atribui os resultados das suas imprudências à firmeza dos seus princípios.

Benjamim Constant

segunda-feira, julho 18, 2016


Angeli


Num estado democrático existem duas classes de políticos: os suspeitos de corrupção e os corruptos.

David Zac



Angeli

sexta-feira, julho 08, 2016


Vossa Excelência

Titãs
Compositores: (P.Miklos, T.Bellotto, C.Gavin)


Estão nas mangas dos Senhores Ministros
Nas capas dos Senhores Magistrados
Nas golas dos Senhores Deputados
Nos fundilhos dos Senhores Vereadores
Nas perucas dos Senhores Senadores
Senhores!
Senhores!
Senhores!
Minha Senhora!
Senhores!
Senhores!
Filha da Puta!
Bandido!
Corrupto!
Ladrão!

Sorrindo para a câmera
Sem saber que estamos vendo
Chorando que dá pena
Quando sabem que estão em cena
Sorrindo para as câmeras
Sem saber que são filmados
Um dia o sol ainda vai nascer
Quadrado

Isso não prova nada!
Sob pressão da opinião pública
É que não haveremos de tomar nenhuma decisão!
Vamos esperar que tudo caia no esquecimento
Aí então...
Faça-se a justiça!
Estamos preparando vossas acomodações, Excelência.
Filha da Puta! Bandido!
Corrupto! Ladrão!
Laerte Coutinho

Queixas de um Utente

Pago os meus impostos, separo
o lixo, já não vejo televisão
há cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à família,
utilizo sempre os transportes
públicos, raramente me esqueço
de deixar água fresca no prato
do gato, tento ser correto
com os meus vizinhos e não cuspo
na sombra dos outros.

Já não me lembro se o médico
me disse ser esta receita a indicada
para salvar o mundo ou apenas
ser feliz. Seja como for,
não estou a ver resultado nenhum.

José Miguel Silva, in 'Ulisses Já Não Mora Aqui'
Henfil


Balada dos Cãotribuintes


Somos nós os desventurados
Os pobres contribuintes
Obrigados a sofrer até ao fim dos tempos
A sorte a que imper
A que impertubáveis
Nos condenam os nossos governos
Todos os nossos governos

Se meteres cem francos de gasolina
Oitenta vão para o Estado
Olha cheio de concupiscência
Os Cadillac... Olha pra outro lado
No teu dois cavalos de brincar
Saltita ao longo dos caminhos
É uma sorte poderes circular
Amanhã vão-te proibir
Taxa sobre o álcool e a cerveja
Sobre os definitivos e os provisórios
Sobre o triste celibatário
Castigado por ser só um
Controlam-te todos os passos
Ah compraste um belo naco
Tudo corre às mil maravilhas
Paga guloso paga pro saco

Refrão

Numa bandeja o Estado dá-te
Um prato... apanhas um desgosto
Está vazio E tu admiras-te
Mas é o prato do imposto
Tu passeias pela vida
De peito feito cheio impante
Cuidado com o imposto sobre a energia
É para ontem... ou mesmo antes
Um belo dia sobre o oxigênio
Ligar-te-ão o contador
Tarifa simples o ar do Sena
Tarifa dupla o ar da serra
Eis porém que tu te fartas
Preferes andar aos caídos
Ou tornar-te engolidor de facas...
Taxa de engolidor acrescentada

Refrão

Um remédio o casamento
Dizes de súbito e corres
A procura de uma rapariga séria
Que saiba de amor e de comes
Apressas-te e calculas
Que ao fim de doze filhos o abono
Do teu rendimento minúsculo
Compensará a escassez
Mas um inspetor das Finanças
Põe-se a badalar a ideia
E pare... sem dor por minha fé
Um texto cheio de veia
Então a Câmara classifica-te
Como garanhão de cobrimento
Medem-te e tens a mais
Pagas taxa sobre o comprimento

Refrão

Se pagasses para alguma coisa
Sempre tinhas uma justificação
Mas infeliz daquele que ousa
Perguntar pr'onde vai o cifrão
Temos estradas miseráveis
Não há escolas mas padres
Acabou o bom vinho há carrascão
Mas fornecem-nos o purê
O governo da França
Republicano — ou que assim diz que é —
Só um prato oferece com abastança
O frango... pilim para o arroz
E para evitar a falência
Dos pobres vendedores de canhões
Faz-se uma guerra do pé para a mão
A guerra não se diz que não...

Mas nós os pobres cães os pobres contribuintes
Virá um dia em que de pau em punho
Nos consolaremos a limpar o redil
Onde os nossos seiscentos porcos estão maduros para o enchido


Boris Vian, in "Canções e Poemas"

Tradução de Irene Freire Nunes / Fernando Cabral Martins
Miguel Paiva

terça-feira, julho 05, 2016


O meu ideal político é a democracia, para que todo o homem seja respeitado como indivíduo e nenhum venerado.


Albert Einstein
Henfil


Diz Machado de Assis, em uma crônica de 5 de março de 1867, véspera de eleições legislativas: 

“Eu creio que há em todo o império uma soma de políticos capaz de formar cinco ou seis câmaras. É que não há outra classe mais numerosa no Brasil. Divide-se essa classe em diversas seções: políticos por vocação, políticos por ambição, políticos por vaidade, políticos por interesse, políticos por desfastio, políticos por não terem nada que fazer. Imagino daqui o imenso trabalho que há de ter V. Exa. em escolher os bons e úteis dentre tantos. E esse é o meu desejo, essa é a necessidade do país.”

A prosperidade de alguns homens públicos do Brasil é uma prova evidente de que eles vêm lutando pelo progresso do nosso subdesenvolvimento.

Stanislaw Ponte Preta
Pasquim n. 954 - 1987.

segunda-feira, julho 04, 2016


“A natureza do humor é ser contra. Contra a autoridade, o estabelecido. A natureza do humor é revelar o que está escondido por trás da aparente normalidade, do poder.”


A frase é do cartunista brasileiro Claudius Ceccon, um dos fundadores do Pasquim, publicação semanal que surgiu em 1969 e que fazia oposição à ditadura militar com sátiras e cartuns.
Pasquim n. 515 - 1979.
O que a história ensina é que os governos e as pessoas nunca aprendem com a história.


Friederich Hegel
Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe - Jaguar

A respeito de política (...) eu continuo a não ter fé em ninguém e a achar todos os mesmos.


Florbela Espanca
Charge do cartunista Storni, publicada na revista Careta nº 974, de 1927, mostrando o político levando o eleitor para votar. 

É incrível que ainda haja quem finja que são os programas e as ideias que decidem os votos. As pessoas votam em pessoas e em partidos e, se e quando coincidem os dois impulsos, maior e mais fácil é a festa.


Miguel Esteves Cardoso - Diário de Notícias (2005)
Henfil

Os homens hão de aprender que a política não é a moral e que se ocupa apenas do que é oportuno.

Henry David Thoreau
Ziraldo

A política é a condução dos negócios públicos para proveito dos particulares.


Ambrose Bierce - Dicionário do Diabo
Laerte Coutinho

quarta-feira, junho 15, 2016


É necessário que os princípios de uma política sejam justos e verdadeiros.

Demóstenes - Olintianas