quarta-feira, junho 25, 2014



URBANOSOFIA

A cidade frita,
Em cada uma das suas esquinas,
Entre os seus sinuosos escuros rios,
Asfalto fervente e brita.

Amplia-se pelos becos,
De caminhos estreitos,
E grandes buracos,
Feito trepadeira,
Em avenidas tentáculos,
Por terrenos baldios,
Infestados de baratas e ratos,
Pelas multidões delirantes.

Na sincity são comuns as pragas,
Algumas mutantes,
Políticos e contribuintes,
Amanhã, agora e antes.

Salvam-se os museus, as bibliotecas, as flores e os muros grafitados com a arte que resta,
O resto da necessidade pictórica,
Num arremedo que retrata a vida caricata psicótica
E o roto urbano calafrio.

O som do silêncio!
Aos olhos cegos e frios,
Em febre convulsa,
Tremendo na base,
A urbe geme!
Mas as paredes são surdas...
Espaço-ambiente em perplexidade,
Grito e buzinas,
Noise,
Mundo hipertélico (sem finalidade para ótica midiática),
A expansão demográfica geográfica alucina,
Arquitetura gelatina,
Diante de tanto concreto,
Diante de tanto cinza,
Preto e branco,
Vela derretida,
Fotografia apagada,
Filme velado,
Diante de um prisma com tantas luzes brilhantes,
Num reflexo de modernidade,
Desconexo cintilante,
Que forma a paisagem de sentimentos.

A cidade é aonde você corre mais para poder ficar no mesmo lugar.

Habitamos numa floresta de símbolos,
Sem árvores,
Um cemitério de sensações e memórias vazias...
Você cidade,
É ainda crua,
Um pálido devaneio,
Parecendo desenho sem claridade,
 Do murcho seio,
Ou talvez uma vidraça suja e embaçada,
Imersa na perversa e intrincada urbanosofia...
Trincada pelo
Stress sistemático,
Que desafia
O complexo,
O caótico viver da guerrilha urbana,
Numa luta contra grades, paredes, muros e pedras,
Onde talvez,
De maneira eficaz,
Somente a poesia,
Seja capaz,
Numa noite de chuva fria,
 De atravessá-las...
Em busca de um universo perdido,
O mundo paralelo das nossas satisfações.

Você praça,
Acho graça!
Clowncity palhaça.

Você prédio,
Acho tédio!

Não queira tapar meu horizonte e os olhos da rua,
Pois isto só permito para a luminosa lua.

terça-feira, junho 18, 2013



O Amor é...     !?

O amor é o início. O amor é o meio. O amor é o fim. O amor faz-te pensar, faz-te sofrer, faz-te agarrar o tempo, faz-te esquecer o tempo. O amor obriga-te a escolher, a separar, a rejeitar. O amor castiga-te. O amor compensa-te. O amor é um prêmio e um castigo. O amor fere-te, o amor salva-te, o amor é um farol e um naufrágio. O amor é alegria. O amor é tristeza. É ciúme, orgasmo, êxtase. O nós, o outro, a ciência da vida.
O amor é um pássaro. Uma armadilha. Uma fraqueza e uma força.
O amor é uma inquietação, uma esperança, uma certeza, uma dúvida. O amor dá-te asas, o amor derruba-te, o amor assusta-te, o amor promete-te, o amor vinga-te, o amor faz-te feliz.
O amor é um caos, o amor é uma ordem. O amor é um mágico. E um palhaço. E uma criança. O amor é um prisioneiro. E um guarda.
Uma sentença. O amor é um guerrilheiro. O amor comanda-te. O amor ordena-te. O amor rouba-te. O amor mata-te.
O amor lembra-te. O amor esquece-te. O amor respira-te. O amor sufoca-te. O amor é um sucesso. E um fracasso. Uma obsessão. Uma doença. O rasto de um cometa. Um buraco negro. Uma estrela. Um dia azul. Um dia de paz.
O amor é um pobre. Um pedinte. O amor é um rico. Um hipócrita, um santo. Um herói e um débil. O amor é um nome. É um corpo. Uma luz. Uma cruz. Uma dor. Uma cor. Uma flor. É o teu sorriso.

O amor não se pode definir; e talvez seja esta dualidade a sua melhor definição. Sendo em nós limitado o modo de explicar os parodoxos e as antíteses, é infinito o modo de sentir; por isso nem tudo o que se sabe sentir, se sabe dizer: o gosto, e a dor, não se podem reduzir a palavras. A palavra é uma asa do silêncio. O amor não só tem ocupado, e há de ocupar o coração dos homens, mas também os seus discursos; porém por mais que a imaginação se esforce, tudo o que produzir a respeito do amor, são átomos. Os que amam não têm livre o espírito para dizerem o que sentem; e sempre acham que o que sentem é mais do que o que dizem; o mesmo amor entorpece a idéia e lhes serve de embaraço: os que não amam, mal podem discorrer sobre uma impressão, que ignoram; os que amaram são como a cinza fria, donde só se reconhece o efeito da chama, e não a sua natureza; ou também como o cometa, que depois de girar a esfera, sem deixar vestígio algum, desaparece.

O Amor, portanto, não se define; sente-se.


MEMÓRIA


Ler um poema é deduzir referências que o poeta deixa implícitas ou que vamos suprindo por conta própria, como se junto de cada frase do poema houvesse um asterisco remetendo para uma nota ao pé da página – só que a nota está em branco, e cabe ao leitor preenchê-la. Tem um poema de Carlos Drummond de Andrade que parece um dos mais simples. É o poeminha “Memória” (em “Claro Enigma”, de 1951). Diz o poema: “Amar o perdido / deixa confundido / este coração. // Nada pode o olvido / contra o sem sentido / apelo do Não. // As coisas tangíveis / tornam-se insensíveis / à palma da mão. // Mas as coisas findas, / muito mais que lindas, / essas ficarão”.

Quatro estrofes, cada uma com quinze sílabas métricas, numa cadência 5-5-5 cujo ritmo implacável é reforçado pelo “ão” com que se encerram. A estrofe inicial não tem mistério: “Amar o perdido deixa confundido este coração”. À primeira vista é o tema da perda da pessoa amada, um dos grandes lugares comuns da poesia lírica. Mas eu penso que Drummond se refere a algo mais sutil: o amor que só brota após a perda. Como ocorre com a amante do poema “Caso do vestido” (em “A Rosa do Povo”), que confessa à mulher cujo marido roubou: “Eu não tinha amor por ele / ao depois amor pegou”. Ou então a fórmula que ele estabelece no poema “Perguntas” (também em “Claro enigma”), em que o Poeta vê um “fantasma” no espelho trazendo-lhe recordações da infância e dizendo-lhe, ao se despedir: “Amar, depois de perder”. O que talvez seja a versão drummondiana para outro lugar comum: “eu era feliz e não sabia”.

Amar o perdido confunde o coração do poeta porque insinua a possibilidade de que na verdade só amamos o que não temos. Nosso objeto preferencial de amor é o sonho, a utopia, o inalcançável – ou, mais realistamente, o ainda inalcançado. Somos todos Don Juans a quem a conquista fascina e a posse provoca o tédio. Ou então somos crianças freudianamente impelidas por pulsões de tal magnitude que nada as satisfaz, nem mesmo a conquista do objeto desejado. O desejo que não foi satisfeito hoje nunca poderá ser satisfeito amanhã, porque nesse caso estaremos satisfazendo apenas o desejo de amanhã. Basta ter desejado em vão por um minuto para continuar desejando por toda a Eternidade.

O verdadeiro desejo nunca é satisfeito, porque o que no fundo desejamos é um objeto total, um arquétipo platônico que funde em si todas as possibilidades daquele ser – e o que obtemos na vida real é o objeto real, com suas incompletudes e defeitos. É como desejar o Oceano e poder apenas encher as mãos em concha. Amamos o que é conquistado, mas amamos ainda mais o que não conquistamos, porque é um sonho que não se desvalorizou em realidade.

A segunda estrofe do poema “Memória” de Carlos Drummond de Andrade (em “Claro Enigma”) diz: “Nada pode o olvido / contra o sem sentido / apelo do Não”. É um poema sobre a perda amorosa, à primeira vista muito simples, mas a facilidade de Drummond é enganosa. É preciso deixar claro que o poeta se refere ao Olvido, o Esquecimento. Já vi esse poema transcrito por aí com o absurdo erro: “Nada pode o ouvido...”
Portanto, o Esquecimento nada pode contra o apelo absurdo, o apelo sem significado do Não. O Poeta parece estar dizendo que o Não (a negação, a impossibilidade, a proibição, a ausência, todos os correlatos dessa idéia básica) tem um apelo sem sentido. Esse “apelo” do Não, não é uma imagem poética que me diga alguma coisa. Podia ser uma porção de coisas relativas ao Não, mas... apelo? Posso explicar racionalmente o uso dessa palavra, mas um verso, como uma piada, não é para ser explicado, é para ser apreendido num segundo. Se isto não acontece, de nada adianta explicar. O “apelo do Não”, portanto, é uma imagem poética que me entra por um ouvido e sai pelo outro.

Mas enfim – o Poeta nos garante que o apelo do Não existe, e que é algo contra o qual nada pode o Esquecimento, o Olvido. O Não impõe suas próprias regras às quais não podemos fugir, e à luz da primeira estrofe (“Amar o perdido deixa confundido este coração”) podemos aceitar que este Não se refere à perda, à ausência, à impossibilidade de ter ou de continuar tendo. E contra isto, nada pode o esquecimento. É inútil (ou é impossível) esquecer a perda, mesmo que ela seja sem sentido.

Analisar um poema desse jeito é uma coisa chata, que eu comparo com querer interpretar um quadro da Van Gogh analisando a composição química das tintas.  A gente só deve fazê-lo quando o poema for opaco, quando a gente não estiver encaixando as frases, quando a conta não fechar. Aí, vale parar e tentar ler o poema como se fosse a resolução de uma equação, onde cada linha é um resultado lógico de uma operação invisível que ocorreu na mente do autor entre uma linha e a seguinte.

A terceira estrofe do poema de Drummond, “Memória”, diz assim: “As coisas tangíveis / tornam-se insensíveis / à palma da mão”. Sendo um poema sobre a perda amorosa, a primeira leitura destes versos refere-se à ausência – nossa mão, que antes sentia a presença de algo concreto, tocável, tangível, não a sente mais. Vejo uma sutileza curiosa no uso desta imagem da “palma da mão”.  Porque me parece que o ato de tocar, experimentar, acariciar algo se dá primeiro pelas pontas dos dedos, que funcionam para nós como as antenas de alguns insetos. O tato que temos nas pontas dos dedos é muito mais refinado e mais reconhecedor de diferenças do que a palma da nossa mão. Por que a palma da mão? Porque ela serve, mais do que para tocar, para reter. Para estabelecer a posse. Na informalidade dos bate-papos amorosos vangloriamo-nos dizendo: “Fulana tá aqui, olha, na minha mão” – e estendemos a palma para reforçar. Se algo não pode mais ser sentido na palma da nossa mão, não nos pertence mais.

Essa imagem me lembra os versos de outro poema do mesmo livro (“Claro Enigma”), o belíssimo “Campo de Flores”, onde o poeta diz: “Seu grão de angústia amor já me oferece / na mão esquerda. / Enquanto a outra acaricia / os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura / e o mistério que além faz os seres preciosos / à visão extasiada”. Esta imagem da mão acariciante me evoca os versos sensuais de Bob Dylan em “I Threw it All Away” (“Eu Joguei Tudo Fora”), canção de 1969: “Um dia eu tive montanhas na palma da minha mão / e rios que fluíam o dia inteiro...” E vejam com que delicadeza Drummond passa da mera posse física para a posse em seu sentido mais pleno, a posse da pessoa total e de tudo que ela inclui, ao dizer que a mão não acaricia apenas os “cabelos”, mas também a “voz”, o “passo”, a “arquitetura”...

E tem mais.  Observem o duplo sentido da palavra “insensível”.  Insensível é aquilo que não sente (“você é uma pessoa insensível”), e também aquilo que não pode ser sentido, imperceptível (“houve uma mudança insensível de temperatura”).  Portanto, as coisas que antes eram tocadas com as mãos já não são sentidas – nem sentem.  A ausência, como a presença, é um fenômeno recíproco. Tudo que toca é tocado. Toda mão que acaricia é também acariciada no mesmo gesto. E tudo que não podemos sentir também não nos sente.

É como a reciprocidade da dor, registrada em outro poema do mesmo livro, “A Um Varão, Que Acaba de Nascer”: “Este é de resto o mal / superior a todos: / a todos como a tudo / estamos presos. E / se tentas arrancar / o espinho de teu flanco, / a dor em ti rebate / a do espinho arrancado”. Quando a ausência se instaura, não existe mais sofrimento mútuo nem prazer mútuo: apenas a falta de contato entre duas “coisas” que, mesmo tangíveis, mesmo possíveis de alcançar com a mão, não se sentem mais uma à outra.

O poema “Memória” de Carlos Drummond de Andrade (no livro “Claro Enigma”) se encerra com esta singela estrofe: “Mas as coisas findas / muito mais que lindas / estas ficarão”.  É uma estrofe perfeita, em todos os sentidos, para fechar este poema sobre a perda e a ausência.
É um poema minúsculo e de grande simetria, mesmo admitindo as variações de ritmo. A simetria é reforçada pela reiteração de rimas toantes centradas na vogal “I” nas linhas 1 e 2 de cada estrofe, e na sonoríssima rima em “ÃO” nas terceiras linhas.

O poeta fala da perda daquilo que foi amado, mas se consola dizendo que existe algo mais importante do que as coisas lindas: são as coisas findas. “Findas” significa encerradas, terminadas.  As coisas que acabaram, ficarão. Vejam que belo paradoxo!  Nossa sensação intuitiva é de que se essas coisas se acabaram, não ficaram. Drummond sugere o contrário. As coisas findas ficarão porque provavelmente se cristalizaram, despregaram-se da realidade (que é fluxo, transformação, incerteza) e tornaram-se Forma, Idéia – tornaram-se Memória.  Vejam com que segurança o poeta usa este termo no futuro, “ficarão”. Me lembra o que disse Mário Quintana: “Esses que aí estão / atravancando meu caminho / eles passarão / eu passarinho”. É como se dissesse: “eles passarão, eu ficarei”.

Que passarinho é este que fica? Penso eu que seja o rouxinol cantado celebremente pelo inglês John Keats, no poema “Ode To a Nightingale”, que examino no capítulo “S” do “ABC de Ariano Suassuna”. É o pássaro imortal que canta o mesmo canto por toda a eternidade. É a memória, que preserva em sua essência as coisas findas. Que na ficção científica foi assim definida por Frank Herbert (“Duna”): “Arrakis ensina a mentalidade da faca: cortar aquilo que está incompleto e dizer – Agora está completo porque termina aqui”.



CONVERSA DE BOTAS BATIDAS

CÍCERO
(Marcelo Camelo + Carlos Drummond de Andrade)



Veja você, onde é que o barco foi desaguar
A gente só queria um amor
Deus parece às vezes se esquecer
Ai, não fala isso, por favor
Esse é só o começo do fim da nossa vida
Deixa chegar o sonho, prepara uma avenida
Que a gente vai passar

Veja você, quando é que tudo foi desabar
A gente corre pra se esconder
E se amar, se amar até o fim
Sem saber que o fim já vai chegar
Deixa o moço bater
Que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos
Pra um amor de tantas rugas
Não ter o seu lugar

Abre a janela agora
Deixa que o sol te veja
É só lembrar que o amor é tão maior
Que estamos sós no céu
Abre as cortinas pra mim
Que eu não me escondo de ninguém
O amor já desvendou nosso lugar
E agora está de bem

"Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão."

Deixa o moço bater
Que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos
Pra um amor de tantas rugas
Não ter o seu lugar

Diz, quem é maior que o amor?
Me abraça forte agora, que é chegada a nossa hora
Vem, vamos além
Vão dizer, que a vida é passageira
Sem lembrar que a nossa estrela vai cair.

ORAÇÃO

A BANDA MAIS BONITA DA CIDADE




Meu amor essa é a última oração


Pra salvar seu coração

Coração não é tão simples quanto pensa

Nele cabe o que não cabe na despensa

Cabe o meu amor!


Cabem três vidas inteiras

Cabe uma penteadeira

Cabe nós dois

Cabe até o meu amor, essa é a última oração


Pra salvar seu coração

Coração não é tão simples quanto pensa

Nele cabe o que não cabe na despensa

Cabe o meu amor!


Cabem três vidas inteiras

Cabe uma penteadeira

Cabe nós dois

Cabe até o meu amor, essa é a última oração


Pra salvar seu coração

Coração não é tão simples quanto pensa

Nele cabe o que não cabe na despensa

Cabe o meu amor!


Cabem três vidas inteiras

Cabe uma penteadeira

Cabe essa oração

quinta-feira, maio 24, 2012



MOSAICO

Telepático sentir do teu querer
Meu amor é um transatlântico
A navegar pelos teus mares
Sentindo os teus sabores
E o gosto, gozo fantástico
Da boca macia do amanhecer...
Metáfora
 
Uma lata existe para conter algo
Mas quando o poeta diz: "Lata"
Pode estar querendo dizer o incontível

Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz: "Meta"
Pode estar querendo dizer o inatingível

Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudo/nada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível

Deixe a meta do poeta, não discuta
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora

Gilberto Gil


 
 
Primavera nos Dentes
 
“Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra mola que resiste
Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera”

João Ricardo e João Apolinário

quarta-feira, maio 23, 2012

 
Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.

Torquato Neto

domingo, março 25, 2012



A MENININHA COM BRINCO DE PÉROLA

Escrevo este brinco que você disse
De cores variadas e montagem engendrada por mãos hábeis
Tipo um Matisse
Por vezes não compreendido ou depreciado pelas mentes débeis
Que crescem nas trevas das terras estéreis, num ventre seco abaixo da superfície
Entre o lodo e escuro barro
Onde se fez o escarro do escárnio
A sujeira e imundície.

PF/RS 45ºC

Miragens no calor do verão:
Teus lindos e durinhos peitinhos suados
Encontro-te com minha mão
Deslizando-a por tua pele e cabelos molhados
Engulo-te com meus olhos, minha língua e boca faminta
Aperto-te às vezes com força a fim de que me sinta
Beijo-te e mordo teu lábio
Tu és minha borboleta e eu teu sábio chinês.

Nothing's gonna change my world
Nada vai mudar meu mundo

Palavras desconexas flutuam como uma fria chuva fina sem fim dentro de uma taça de cristal
Elas vibram enquanto deslizam através do Universo
Piscinas de mágoas, ondas de alegrias passando por minha mente, coisas e tal
Possuindo e acariciando o verso.

Trem no trilho trágico
Trinca na mega
Número mágico
Pode correr que não me pega
E se pega não leva, não sou brinquedo de plástico
Mesmo acertando não ganha
Mesmo batendo apanha.
Uns têm esperteza
Outros têm a manha.

Muitos têm tão pouco e poucos têm tanto
Pontes entre o aqui e agora
Espaço tempo acessado pelo pensamento
Refinamento do processo cognitivo
O Universo me chamando para ir embora.

terça-feira, fevereiro 07, 2012


O Andaime


O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!

Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anônimo e frio,
A vida vivida em vão.

A esperança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobre mais que minha esperança,
Rola mais que o meu desejo.

Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam — verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.

Gastei tudo que não tinha.
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.

Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida!

Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.

Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só lembranças —
Mortas, porque hão de morrer.

Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim —
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser — muro
Do meu deserto jardim.

Ondas passadas, levai-me
Para o alvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar.


Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"



Impressões Oníricas


Alguém aí pode me dizer dizer?
Mais vale ser aquele que vê o mundo acordado,
Ou o que em sonhos foi se perder?

O que é verdadeiro? O que mais será...
A mentira que há na realidade,
Ou a mentira que em sonhos está?

Quem está da verdade mais afastado —
Aquele que em sombra vê a verdade
Ou o que vê o sonho iluminado?

quinta-feira, dezembro 29, 2011



FLORBELA ESPANCA


Florbela Espanca trancou-se no quarto. Já passava das 2 da manhã. Que presente poderia querer ela naquele 8 de dezembro de 1930, seu 36º aniversário? Ninguém sabe. Ao marido, Mário Lage, deixou a recomendação de que não fosse incomodada até a manhã seguinte. E de fato nenhuma pessoa o fez, nunca mais. Naquela madrugada, deitada na cama, sem “haver gestos novos nem palavras novas” – como dias antes escrevera pela última vez no que havia intitulado de Diário do Último Ano –, a poeta portuguesa suicidou-se ingerindo dois frascos do barbitúrico Veronal.

Desde então, ela é alvo de extensos estudos e biografias. A fama de transgressora, por ter desafiado os preceitos da sociedade – casou-se três vezes e frequentava a boemia, fumando e bebendo, por exemplo – transformou-se nas nomenclaturas precursora e feminista. E, se o reconhecimento, justamente por ser mulher, foi inferior ao que tiveram seus contemporâneos Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, hoje ocupa imenso destaque nos círculos literários.


Uma flor


Dores e dúvidas, às centenas, sobre díspares perspectivas da existência são tão recorrentes na vida e na obra de Florbela que até norteiam seu primeiro poema, “A Vida e a Morte”, escrito com precoces 8 anos de idade. Em outra frente, engano é reduzir a sofrimentos sua história. A menina miúda, de olhos negros e mente inquieta, experimentou as pequenas e grandes alegrias reservadas a qualquer ser humano.

Quando pequena, compartilhou com satisfação a vida em família, período em que vivia em Vila Viçosa, cidade onde nasceu. Mãe tinha duas: Antônia da Conceição Lobo e Mariana Toscano. A primeira, de sangue; a segunda, de criação.

Acontece que Mariana, a mulher legítima de João Maria Espanca, não podia engravidar. Para ser pai, ele recorreu a uma regra medieval, muito aceita pela sociedade portuguesa da época, que permitia ao homem, nesse tipo de situação, ter com outra os descendentes que seriam adotados pela esposa. A escolhida foi Antônia, empregada da residência, com quem João teve também outro fruto, Apeles Espanca, dois anos mais jovem que Florbela.

Embora trabalhasse na mesma casa, o contato íntimo entre mãe biológica e filha só existiu nos primeiros meses de vida, quando era amamentada. Para a docente e pesquisadora da Unesp Renata Soares Junqueira, autora do livro Florbela Espanca – Uma Estética da Teatralidade (Editora da Unesp), tal fato contribuiu muito para o direcionamento artístico da escritora. “Ela transpôs para os seus poemas a imagem da mulher triste, abandonada pela sorte desde o nascimento”, enfatiza ao mesmo tempo em que adverte para não se cometer o equívoco, todavia, de pressupor que seus relatos são invariavelmente biográficos. “Durante muitos anos a crítica se assenhoreou, com poucas exceções, em identificar nas entrelinhas de toda a poesia eventos da biografia de Florbela. Criou-se, assim, uma enorme confusão entre realidade e ficção. Temos de tomar cuidado para não confundirmos a vida com a obra.”


Primeiros passos


Para a escritora portuguesa, nunca importou se a mulher era vista com inferioridade pela sociedade machista. Se para a maior parte delas cabia apenas concluir a escola primária, Florbela aspirava por mais. Em 1908, aos 11 anos, foi uma das primeiras a ingressar no curso secundário do Liceu de Évora, cidade alentejana para onde seus pais se mudaram a fim de facilitar os estudos da filha.

Nesse mesmo ano, recebeu a notícia da morte de sua mãe Antônia da Conceição, de quem, mais do que características físicas, herdou a doença que viria a lhe perturbar todos os próximos anos: a neurastenia, causadora de transtornos psicológicos e muitas dores de cabeça.

Ainda adolescente, três eram as suas paixões: o irmão, com quem mantinha profundos laços fraternos; o pai, com quem dividia o gosto pela fotografia; e o colega de estudo Alberto Moutinho, um ano mais velho e o primeiro marido, em cerimônia oficializada em 1913, na data do aniversário de 19 anos da escritora.



Amar perdidamente


De matrimônio estabelecido, não é surpresa que Florbela não fosse a esposa subserviente. Dona de um temperamento forte, só fazia o que lhe agradava, principalmente escrever. “Ela era incapaz de viver submissa a um homem, por mais que o amasse. Não aceitava que o amor fosse o confinamento da mulher. E, mesmo casada, sempre lutou para publicar seus versos, atividade condenada por seus maridos”.

Mas amar, justamente, era o motor propulsor da escritora. Seja o que demonstrou nos versos, no esforço para publicar o primeiro título, Livro de Mágoas, em 1919, seja o carnal propriamente dito. Certo é que as maiores transformações de sua vida vieram à tona a partir dos 23 anos.

Em Lisboa, onde ingressou na Faculdade de Direito, viveu com intensidade a boemia e travou contato com outros autores, como José Schimidt Rau e Vasco Caméliet. Mas foi lá, todavia, que sofreu um grande dissabor: um aborto espontâneo. O acontecimento, seguido de uma profunda crise neurastênica e a instabilidade emocional da autora, resultou no fim do casamento, em 1921.

Recuperada, Florbela apaixonou-se por Antônio Guimarães, oficial de artilharia da Guarda Republicana. Foi com ele que se casou em junho do mesmo ano. Mais uma vez, o amar a alimentava. Sentimento este que é agudo em sua obra e inato nas publicações subsequentes, Livro de Soror Saudade (1923) e Charneca em Flor (1930), em versos como: “Eu quero amar, amar perdidamente! / Amar só por amar: Aqui… além… / Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente… / Amar! Amar! E não amar ninguém!”.

Mas o novo casamento durou pouco mais de três anos, até 1925, período marcado por um segundo aborto involuntário e novas crises de saúde. O amar, embora contido em toda a obra, revelava-se na vida real mais turbulento do que nos versos.

Antes mesmo de oficializar o segundo divórcio, porém, Florbela passou a dividir uma casa com sua mais nova paixão: o médico Mário Lage. Em sua companhia, sofreria a maior perda: a morte do irmão, Apeles, em 1927, em um acidente com o hidroavião que ele pilotava.


Sou eu!


Florbela está entregue às graves crises da doença que lhe acomete desde a adolescência. E, se não bastasse, é diagnosticada com edema pulmonar. Mesmo assim, fuma e emagrece demais. Alegra-se com flores e livros. O ano é 1930, o último.

Sem querer pertencer a qualquer estilo literário, continua a produzir incessantemente contos, traduções de romances franceses, e a colaborar em revistas femininas. Em seus versos, deixa perpassar o erotismo que revoluciona ao trazer a mulher ao domínio da relação. O que também provoca um olhar de desconfiança e preconceito da crítica.

Todavia, a Florbela Espanca de carne e osso não se importa com mais nada. É dela a melhor definição de quem foi e ainda existe: “O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades… sei lá de quê!”



Inatividade em Esboço


Estou aposentado.
Enfim terminei. Ponto final.
Restou-me o céu estrelado
E as flores do meu quintal.

Subi ao cume da montanha escura
Da Vida e Morte... Enorme ascensão:
Uns mil metros de altura
Acima do reles chão.

Lançando um olhar profundo
Dessa altura sobre-humana,
Vi quanto é pequeno o mundo
E grande a tragédia humana

Vi a traição e a cobiça
Fazendo festins e bacanais,
No corpo nu e olhos cegos da Justiça,
Às portas dos tribunais.

Vi que a história, um sonho breve,
Na noite imensa e voraz,
Se é tácito quem a escreve,
É a gente que a faz.

Guio-me apenas, pela distante,
Luz ingênua da crença,
Vaga nebulosa errante
Nas trevas da noite imensa...


Mal enxergo pela fenda do véu da ilusão,

Mal caibo em mim mesmo;

Por farol o coração,

Pelo mar, navego a esmo.

segunda-feira, dezembro 19, 2011


"(...) Deus fala de um modo, sim, de dois modos, mas o homem não atenta para isso. Em sonho ou em visão de noite, quando cai o sono profundo sobre os homens, quando adormecem na cama, então lhes abre os ouvidos e lhes sela a sua instrução, para apartar o homem do seu desígnio e livrá-lo da soberba; para guardar a sua alma da cova e a sua vida de passar pela espada."

Jó 33. 14-18


Entre o Sono e Sonho


Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre —
Esse rio sem fim.


Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"



AB IMO PECTORE


Era uma noite chuvosa — no chão molhado eu dormia

E nos meus sonhos atormentados revia

As ilusões que sonhei!

Sonhei que vivia...

Meu Deus ! porque não morri ?

Porque do sono acordei ?


Sou eu ! que não esqueci

As noites que não dormi,

Que não foi uma ilusão

Sou eu que sinto morrer

A esperança de viver....

No fundo do coração !


Tudo bem que tu rias das esperanças,

Das minhas loucas lembranças,

Que me corroem assim,

Ou então no silêncio da madrugada, com medo

Chorarias em segredo

Uma lágrima por mim ?


Dorme, meu coração! em paz esquece

Tudo, tudo que amaste neste mundo!

Antes do sonho, uma prece,

Não interrompa meu dormir profundo!


Meu triste coração, dorme na noite calma,

Dorme no peito meu!

Do derradeiro sonho despertei, e na alma

Tudo! tudo morreu !


Feliz daquele que no livro da alma

Não tem folhas escritas,

E nem saudade amarga, arrependida,

Nem lágrimas negras malditas!


Alma em pranto, sedenta de infinito,

Em amplas visões o universo se abrindo,

Como a brisa fria no céu noturno, como se acordasse com um grito,

Entre os mundos de Deus passei dormindo!

sexta-feira, dezembro 09, 2011


Dizem que finjo ou minto


Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é,
Sentir, sinta quem lê!


Fernando Pessoa



DEZ IX - I


Quase todas as coisas têm o aspecto baço e mudo,

Como que envolvidas por uma densa bruma de incenso;

No alto, uma nuvem, só, ocupando espaço extenso,

Pedaço do céu de veludo.


DEZ IX - II


Caro Poeta, quando te leio, a angústia dolorida

Que te preenche a existência e que em teu coração impera,

Faz-me também sofrer e da alma se apodera,

Como se de dentro de mim ela fosse nascida.

Sinto o que sentes: ora a lágrima sincera

Que foi pela saudade ou pelo amor vertida,

Ora a tristeza, que habita em tua alma, — guarida

Onde a negra legião se aglomera...

Não há nesses versos um sentimento alheio

A dor; neles se encontra a aspereza das pragas;

Há neles ora as ondas do radar de como veio

o morcego, ora a queixa harmônica das águas.. .

Leio os teus poemas; e, em minha alma, quando, os leio,

Vão gemendo, em surdina, a melodia das mágoas. . .