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quarta-feira, junho 25, 2014
terça-feira, junho 18, 2013
quinta-feira, maio 24, 2012
Mas quando o poeta diz: "Lata"
Pode estar querendo dizer o incontível
Mas quando o poeta diz: "Meta"
Pode estar querendo dizer o inatingível
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudo/nada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra mola que resiste
Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera”
João Ricardo e João Apolinário
quarta-feira, maio 23, 2012
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.
domingo, março 25, 2012



terça-feira, fevereiro 07, 2012

O Andaime
O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!
Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anônimo e frio,
A vida vivida em vão.
A esperança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobre mais que minha esperança,
Rola mais que o meu desejo.
Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam — verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.
Gastei tudo que não tinha.
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.
Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida!
Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.
Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só lembranças —
Mortas, porque hão de morrer.
Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim —
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser — muro
Do meu deserto jardim.
Ondas passadas, levai-me
Para o alvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar.
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

Impressões Oníricas
Alguém aí pode me dizer dizer?
Mais vale ser aquele que vê o mundo acordado,
Ou o que em sonhos foi se perder?
O que é verdadeiro? O que mais será...
A mentira que há na realidade,
Ou a mentira que em sonhos está?
Quem está da verdade mais afastado —
Aquele que em sombra vê a verdade
Ou o que vê o sonho iluminado?
quinta-feira, dezembro 29, 2011

FLORBELA ESPANCA
Florbela Espanca trancou-se no quarto. Já passava das 2 da manhã. Que presente poderia querer ela naquele 8 de dezembro de 1930, seu 36º aniversário? Ninguém sabe. Ao marido, Mário Lage, deixou a recomendação de que não fosse incomodada até a manhã seguinte. E de fato nenhuma pessoa o fez, nunca mais. Naquela madrugada, deitada na cama, sem “haver gestos novos nem palavras novas” – como dias antes escrevera pela última vez no que havia intitulado de Diário do Último Ano –, a poeta portuguesa suicidou-se ingerindo dois frascos do barbitúrico Veronal.
Desde então, ela é alvo de extensos estudos e biografias. A fama de transgressora, por ter desafiado os preceitos da sociedade – casou-se três vezes e frequentava a boemia, fumando e bebendo, por exemplo – transformou-se nas nomenclaturas precursora e feminista. E, se o reconhecimento, justamente por ser mulher, foi inferior ao que tiveram seus contemporâneos Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, hoje ocupa imenso destaque nos círculos literários.
Uma flor
Dores e dúvidas, às centenas, sobre díspares perspectivas da existência são tão recorrentes na vida e na obra de Florbela que até norteiam seu primeiro poema, “A Vida e a Morte”, escrito com precoces 8 anos de idade. Em outra frente, engano é reduzir a sofrimentos sua história. A menina miúda, de olhos negros e mente inquieta, experimentou as pequenas e grandes alegrias reservadas a qualquer ser humano.
Quando pequena, compartilhou com satisfação a vida em família, período em que vivia em Vila Viçosa, cidade onde nasceu. Mãe tinha duas: Antônia da Conceição Lobo e Mariana Toscano. A primeira, de sangue; a segunda, de criação.
Acontece que Mariana, a mulher legítima de João Maria Espanca, não podia engravidar. Para ser pai, ele recorreu a uma regra medieval, muito aceita pela sociedade portuguesa da época, que permitia ao homem, nesse tipo de situação, ter com outra os descendentes que seriam adotados pela esposa. A escolhida foi Antônia, empregada da residência, com quem João teve também outro fruto, Apeles Espanca, dois anos mais jovem que Florbela.
Embora trabalhasse na mesma casa, o contato íntimo entre mãe biológica e filha só existiu nos primeiros meses de vida, quando era amamentada. Para a docente e pesquisadora da Unesp Renata Soares Junqueira, autora do livro Florbela Espanca – Uma Estética da Teatralidade (Editora da Unesp), tal fato contribuiu muito para o direcionamento artístico da escritora. “Ela transpôs para os seus poemas a imagem da mulher triste, abandonada pela sorte desde o nascimento”, enfatiza ao mesmo tempo em que adverte para não se cometer o equívoco, todavia, de pressupor que seus relatos são invariavelmente biográficos. “Durante muitos anos a crítica se assenhoreou, com poucas exceções, em identificar nas entrelinhas de toda a poesia eventos da biografia de Florbela. Criou-se, assim, uma enorme confusão entre realidade e ficção. Temos de tomar cuidado para não confundirmos a vida com a obra.”
Primeiros passos
Para a escritora portuguesa, nunca importou se a mulher era vista com inferioridade pela sociedade machista. Se para a maior parte delas cabia apenas concluir a escola primária, Florbela aspirava por mais. Em 1908, aos 11 anos, foi uma das primeiras a ingressar no curso secundário do Liceu de Évora, cidade alentejana para onde seus pais se mudaram a fim de facilitar os estudos da filha.
Nesse mesmo ano, recebeu a notícia da morte de sua mãe Antônia da Conceição, de quem, mais do que características físicas, herdou a doença que viria a lhe perturbar todos os próximos anos: a neurastenia, causadora de transtornos psicológicos e muitas dores de cabeça.
Ainda adolescente, três eram as suas paixões: o irmão, com quem mantinha profundos laços fraternos; o pai, com quem dividia o gosto pela fotografia; e o colega de estudo Alberto Moutinho, um ano mais velho e o primeiro marido, em cerimônia oficializada em 1913, na data do aniversário de 19 anos da escritora.
Amar perdidamente
De matrimônio estabelecido, não é surpresa que Florbela não fosse a esposa subserviente. Dona de um temperamento forte, só fazia o que lhe agradava, principalmente escrever. “Ela era incapaz de viver submissa a um homem, por mais que o amasse. Não aceitava que o amor fosse o confinamento da mulher. E, mesmo casada, sempre lutou para publicar seus versos, atividade condenada por seus maridos”.
Mas amar, justamente, era o motor propulsor da escritora. Seja o que demonstrou nos versos, no esforço para publicar o primeiro título, Livro de Mágoas, em 1919, seja o carnal propriamente dito. Certo é que as maiores transformações de sua vida vieram à tona a partir dos 23 anos.
Em Lisboa, onde ingressou na Faculdade de Direito, viveu com intensidade a boemia e travou contato com outros autores, como José Schimidt Rau e Vasco Caméliet. Mas foi lá, todavia, que sofreu um grande dissabor: um aborto espontâneo. O acontecimento, seguido de uma profunda crise neurastênica e a instabilidade emocional da autora, resultou no fim do casamento, em 1921.
Recuperada, Florbela apaixonou-se por Antônio Guimarães, oficial de artilharia da Guarda Republicana. Foi com ele que se casou em junho do mesmo ano. Mais uma vez, o amar a alimentava. Sentimento este que é agudo em sua obra e inato nas publicações subsequentes, Livro de Soror Saudade (1923) e Charneca em Flor (1930), em versos como: “Eu quero amar, amar perdidamente! / Amar só por amar: Aqui… além… / Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente… / Amar! Amar! E não amar ninguém!”.
Mas o novo casamento durou pouco mais de três anos, até 1925, período marcado por um segundo aborto involuntário e novas crises de saúde. O amar, embora contido em toda a obra, revelava-se na vida real mais turbulento do que nos versos.
Antes mesmo de oficializar o segundo divórcio, porém, Florbela passou a dividir uma casa com sua mais nova paixão: o médico Mário Lage. Em sua companhia, sofreria a maior perda: a morte do irmão, Apeles, em 1927, em um acidente com o hidroavião que ele pilotava.
Sou eu!
Florbela está entregue às graves crises da doença que lhe acomete desde a adolescência. E, se não bastasse, é diagnosticada com edema pulmonar. Mesmo assim, fuma e emagrece demais. Alegra-se com flores e livros. O ano é 1930, o último.
Sem querer pertencer a qualquer estilo literário, continua a produzir incessantemente contos, traduções de romances franceses, e a colaborar em revistas femininas. Em seus versos, deixa perpassar o erotismo que revoluciona ao trazer a mulher ao domínio da relação. O que também provoca um olhar de desconfiança e preconceito da crítica.
Todavia, a Florbela Espanca de carne e osso não se importa com mais nada. É dela a melhor definição de quem foi e ainda existe: “O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades… sei lá de quê!”

Inatividade em Esboço
Estou aposentado.
Enfim terminei. Ponto final.
Restou-me o céu estrelado
E as flores do meu quintal.
Subi ao cume da montanha escura
Da Vida e Morte... Enorme ascensão:
Uns mil metros de altura
Acima do reles chão.
Lançando um olhar profundo
Dessa altura sobre-humana,
Vi quanto é pequeno o mundo
E grande a tragédia humana
Vi a traição e a cobiça
Fazendo festins e bacanais,
No corpo nu e olhos cegos da Justiça,
Às portas dos tribunais.
Vi que a história, um sonho breve,
Na noite imensa e voraz,
Se é tácito quem a escreve,
É a gente que a faz.
Guio-me apenas, pela distante,
Luz ingênua da crença,
Vaga nebulosa errante
Nas trevas da noite imensa...
Mal enxergo pela fenda do véu da ilusão,
Mal caibo em mim mesmo;
Por farol o coração,
Pelo mar, navego a esmo.
segunda-feira, dezembro 19, 2011

"(...) Deus fala de um modo, sim, de dois modos, mas o homem não atenta para isso. Em sonho ou em visão de noite, quando cai o sono profundo sobre os homens, quando adormecem na cama, então lhes abre os ouvidos e lhes sela a sua instrução, para apartar o homem do seu desígnio e livrá-lo da soberba; para guardar a sua alma da cova e a sua vida de passar pela espada."
Jó 33. 14-18

Entre o Sono e Sonho
Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.
Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.
Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.
E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre —
Esse rio sem fim.
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

AB IMO PECTORE
Era uma noite chuvosa — no chão molhado eu dormia
E nos meus sonhos atormentados revia
As ilusões que sonhei!
Sonhei que vivia...
Meu Deus ! porque não morri ?
Porque do sono acordei ?
Sou eu ! que não esqueci
As noites que não dormi,
Que não foi uma ilusão
Sou eu que sinto morrer
A esperança de viver....
No fundo do coração !
Tudo bem que tu rias das esperanças,
Das minhas loucas lembranças,
Que me corroem assim,
Ou então no silêncio da madrugada, com medo
Chorarias em segredo
Uma lágrima por mim ?
Dorme, meu coração! em paz esquece
Tudo, tudo que amaste neste mundo!
Antes do sonho, uma prece,
Não interrompa meu dormir profundo!
Meu triste coração, dorme na noite calma,
Dorme no peito meu!
Do derradeiro sonho despertei, e na alma
Tudo! tudo morreu !
Feliz daquele que no livro da alma
Não tem folhas escritas,
E nem saudade amarga, arrependida,
Nem lágrimas negras malditas!
Alma em pranto, sedenta de infinito,
Em amplas visões o universo se abrindo,
Como a brisa fria no céu noturno, como se acordasse com um grito,
Entre os mundos de Deus passei dormindo!
sexta-feira, dezembro 09, 2011

Dizem que finjo ou minto
Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é,
Sentir, sinta quem lê!
Fernando Pessoa

DEZ IX - II
Caro Poeta, quando te leio, a angústia dolorida
Que te preenche a existência e que em teu coração impera,
Faz-me também sofrer e da alma se apodera,
Como se de dentro de mim ela fosse nascida.
Sinto o que sentes: ora a lágrima sincera
Que foi pela saudade ou pelo amor vertida,
Ora a tristeza, que habita em tua alma, — guarida
Onde a negra legião se aglomera...
Não há nesses versos um sentimento alheio
A dor; neles se encontra a aspereza das pragas;
Há neles ora as ondas do radar de como veio
o morcego, ora a queixa harmônica das águas.. .
Leio os teus poemas; e, em minha alma, quando, os leio,
Vão gemendo, em surdina, a melodia das mágoas. . .





