domingo, julho 06, 2014


London B&W

London B&W
(Trafalgar Square)

sexta-feira, junho 27, 2014



(Piérce Willians / As Irmãs da Providência)


A neblina apaga o sol, sufocando o meu bem querer;
Desde quando você me deixou, esta vida é feito morrer.
E eu já fui mais bonito e eu já fui mais feliz;
Hoje, nem acredito:
Só sei viver por um triz...
Mas eu te quero de volta, nem que seja uma vez;
Nem que seja um adeus e até ‘nunca mais’.
Nenhum adeus é pra sempre e nem o sempre é jamais:
A tristeza da gente é acordar pra viver.
A tristeza da gente é acordar pra viver;
A tristeza da gente é acordar pra viver...


A Nossa Vitória de cada Dia


            Olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos.

            Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer a sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. 

            Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer «pelo menos não fui tolo» e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. 


Clarice Lispector, in 'Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres'





SAIBA
Arnaldo Antunes

Saiba,
Todo mundo foi neném
Einstein, Freud e Platão também
Hitler, Bush e Sadam Hussein
Quem tem grana e quem não tem
Saiba:
Todo mundo teve infância
Maomé já foi criança
Arquimedes, Buda, Galileu
e também você e eu
Saiba,
Todo mundo teve medo
Mesmo que seja segredo
Nietzsche e Simone de Beauvoir
Fernandinho Beira-Mar
Saiba,
Todo mundo vai morrer
Presidente, general ou rei
Anglo-saxão ou muçulmano
Todo e qualquer ser humano
Saiba,
Todo mundo teve pai
Quem já foi e quem ainda vai
Lao Tsé, Moisés, Ramsés, Pelé
Ghandi, Mike Tyson, Salomé
Saiba,
Todo mundo teve mãe
Índios, africanos e alemães
Nero, Che Guevara, Pinochet
e também eu e você.

quarta-feira, junho 25, 2014

Os Gêmeos
 

Os Gemeos

"Blue Girl"

PHOTOGRAPHY 
Stefan Werkhäuser


STREET ART/GRAFFITI
Faith47


URBANOSOFIA

A cidade frita,
Em cada uma das suas esquinas,
Entre os seus sinuosos escuros rios,
Asfalto fervente e brita.

Amplia-se pelos becos,
De caminhos estreitos,
E grandes buracos,
Feito trepadeira,
Em avenidas tentáculos,
Por terrenos baldios,
Infestados de baratas e ratos,
Pelas multidões delirantes.

Na sincity são comuns as pragas,
Algumas mutantes,
Políticos e contribuintes,
Amanhã, agora e antes.

Salvam-se os museus, as bibliotecas, as flores e os muros grafitados com a arte que resta,
O resto da necessidade pictórica,
Num arremedo que retrata a vida caricata psicótica
E o roto urbano calafrio.

O som do silêncio!
Aos olhos cegos e frios,
Em febre convulsa,
Tremendo na base,
A urbe geme!
Mas as paredes são surdas...
Espaço-ambiente em perplexidade,
Grito e buzinas,
Noise,
Mundo hipertélico (sem finalidade para ótica midiática),
A expansão demográfica geográfica alucina,
Arquitetura gelatina,
Diante de tanto concreto,
Diante de tanto cinza,
Preto e branco,
Vela derretida,
Fotografia apagada,
Filme velado,
Diante de um prisma com tantas luzes brilhantes,
Num reflexo de modernidade,
Desconexo cintilante,
Que forma a paisagem de sentimentos.

A cidade é aonde você corre mais para poder ficar no mesmo lugar.

Habitamos numa floresta de símbolos,
Sem árvores,
Um cemitério de sensações e memórias vazias...
Você cidade,
É ainda crua,
Um pálido devaneio,
Parecendo desenho sem claridade,
 Do murcho seio,
Ou talvez uma vidraça suja e embaçada,
Imersa na perversa e intrincada urbanosofia...
Trincada pelo
Stress sistemático,
Que desafia
O complexo,
O caótico viver da guerrilha urbana,
Numa luta contra grades, paredes, muros e pedras,
Onde talvez,
De maneira eficaz,
Somente a poesia,
Seja capaz,
Numa noite de chuva fria,
 De atravessá-las...
Em busca de um universo perdido,
O mundo paralelo das nossas satisfações.

Você praça,
Acho graça!
Clowncity palhaça.

Você prédio,
Acho tédio!

Não queira tapar meu horizonte e os olhos da rua,
Pois isto só permito para a luminosa lua.

terça-feira, junho 18, 2013



O Amor é...     !?

O amor é o início. O amor é o meio. O amor é o fim. O amor faz-te pensar, faz-te sofrer, faz-te agarrar o tempo, faz-te esquecer o tempo. O amor obriga-te a escolher, a separar, a rejeitar. O amor castiga-te. O amor compensa-te. O amor é um prêmio e um castigo. O amor fere-te, o amor salva-te, o amor é um farol e um naufrágio. O amor é alegria. O amor é tristeza. É ciúme, orgasmo, êxtase. O nós, o outro, a ciência da vida.
O amor é um pássaro. Uma armadilha. Uma fraqueza e uma força.
O amor é uma inquietação, uma esperança, uma certeza, uma dúvida. O amor dá-te asas, o amor derruba-te, o amor assusta-te, o amor promete-te, o amor vinga-te, o amor faz-te feliz.
O amor é um caos, o amor é uma ordem. O amor é um mágico. E um palhaço. E uma criança. O amor é um prisioneiro. E um guarda.
Uma sentença. O amor é um guerrilheiro. O amor comanda-te. O amor ordena-te. O amor rouba-te. O amor mata-te.
O amor lembra-te. O amor esquece-te. O amor respira-te. O amor sufoca-te. O amor é um sucesso. E um fracasso. Uma obsessão. Uma doença. O rasto de um cometa. Um buraco negro. Uma estrela. Um dia azul. Um dia de paz.
O amor é um pobre. Um pedinte. O amor é um rico. Um hipócrita, um santo. Um herói e um débil. O amor é um nome. É um corpo. Uma luz. Uma cruz. Uma dor. Uma cor. Uma flor. É o teu sorriso.

O amor não se pode definir; e talvez seja esta dualidade a sua melhor definição. Sendo em nós limitado o modo de explicar os parodoxos e as antíteses, é infinito o modo de sentir; por isso nem tudo o que se sabe sentir, se sabe dizer: o gosto, e a dor, não se podem reduzir a palavras. A palavra é uma asa do silêncio. O amor não só tem ocupado, e há de ocupar o coração dos homens, mas também os seus discursos; porém por mais que a imaginação se esforce, tudo o que produzir a respeito do amor, são átomos. Os que amam não têm livre o espírito para dizerem o que sentem; e sempre acham que o que sentem é mais do que o que dizem; o mesmo amor entorpece a idéia e lhes serve de embaraço: os que não amam, mal podem discorrer sobre uma impressão, que ignoram; os que amaram são como a cinza fria, donde só se reconhece o efeito da chama, e não a sua natureza; ou também como o cometa, que depois de girar a esfera, sem deixar vestígio algum, desaparece.

O Amor, portanto, não se define; sente-se.


MEMÓRIA


Ler um poema é deduzir referências que o poeta deixa implícitas ou que vamos suprindo por conta própria, como se junto de cada frase do poema houvesse um asterisco remetendo para uma nota ao pé da página – só que a nota está em branco, e cabe ao leitor preenchê-la. Tem um poema de Carlos Drummond de Andrade que parece um dos mais simples. É o poeminha “Memória” (em “Claro Enigma”, de 1951). Diz o poema: “Amar o perdido / deixa confundido / este coração. // Nada pode o olvido / contra o sem sentido / apelo do Não. // As coisas tangíveis / tornam-se insensíveis / à palma da mão. // Mas as coisas findas, / muito mais que lindas, / essas ficarão”.

Quatro estrofes, cada uma com quinze sílabas métricas, numa cadência 5-5-5 cujo ritmo implacável é reforçado pelo “ão” com que se encerram. A estrofe inicial não tem mistério: “Amar o perdido deixa confundido este coração”. À primeira vista é o tema da perda da pessoa amada, um dos grandes lugares comuns da poesia lírica. Mas eu penso que Drummond se refere a algo mais sutil: o amor que só brota após a perda. Como ocorre com a amante do poema “Caso do vestido” (em “A Rosa do Povo”), que confessa à mulher cujo marido roubou: “Eu não tinha amor por ele / ao depois amor pegou”. Ou então a fórmula que ele estabelece no poema “Perguntas” (também em “Claro enigma”), em que o Poeta vê um “fantasma” no espelho trazendo-lhe recordações da infância e dizendo-lhe, ao se despedir: “Amar, depois de perder”. O que talvez seja a versão drummondiana para outro lugar comum: “eu era feliz e não sabia”.

Amar o perdido confunde o coração do poeta porque insinua a possibilidade de que na verdade só amamos o que não temos. Nosso objeto preferencial de amor é o sonho, a utopia, o inalcançável – ou, mais realistamente, o ainda inalcançado. Somos todos Don Juans a quem a conquista fascina e a posse provoca o tédio. Ou então somos crianças freudianamente impelidas por pulsões de tal magnitude que nada as satisfaz, nem mesmo a conquista do objeto desejado. O desejo que não foi satisfeito hoje nunca poderá ser satisfeito amanhã, porque nesse caso estaremos satisfazendo apenas o desejo de amanhã. Basta ter desejado em vão por um minuto para continuar desejando por toda a Eternidade.

O verdadeiro desejo nunca é satisfeito, porque o que no fundo desejamos é um objeto total, um arquétipo platônico que funde em si todas as possibilidades daquele ser – e o que obtemos na vida real é o objeto real, com suas incompletudes e defeitos. É como desejar o Oceano e poder apenas encher as mãos em concha. Amamos o que é conquistado, mas amamos ainda mais o que não conquistamos, porque é um sonho que não se desvalorizou em realidade.

A segunda estrofe do poema “Memória” de Carlos Drummond de Andrade (em “Claro Enigma”) diz: “Nada pode o olvido / contra o sem sentido / apelo do Não”. É um poema sobre a perda amorosa, à primeira vista muito simples, mas a facilidade de Drummond é enganosa. É preciso deixar claro que o poeta se refere ao Olvido, o Esquecimento. Já vi esse poema transcrito por aí com o absurdo erro: “Nada pode o ouvido...”
Portanto, o Esquecimento nada pode contra o apelo absurdo, o apelo sem significado do Não. O Poeta parece estar dizendo que o Não (a negação, a impossibilidade, a proibição, a ausência, todos os correlatos dessa idéia básica) tem um apelo sem sentido. Esse “apelo” do Não, não é uma imagem poética que me diga alguma coisa. Podia ser uma porção de coisas relativas ao Não, mas... apelo? Posso explicar racionalmente o uso dessa palavra, mas um verso, como uma piada, não é para ser explicado, é para ser apreendido num segundo. Se isto não acontece, de nada adianta explicar. O “apelo do Não”, portanto, é uma imagem poética que me entra por um ouvido e sai pelo outro.

Mas enfim – o Poeta nos garante que o apelo do Não existe, e que é algo contra o qual nada pode o Esquecimento, o Olvido. O Não impõe suas próprias regras às quais não podemos fugir, e à luz da primeira estrofe (“Amar o perdido deixa confundido este coração”) podemos aceitar que este Não se refere à perda, à ausência, à impossibilidade de ter ou de continuar tendo. E contra isto, nada pode o esquecimento. É inútil (ou é impossível) esquecer a perda, mesmo que ela seja sem sentido.

Analisar um poema desse jeito é uma coisa chata, que eu comparo com querer interpretar um quadro da Van Gogh analisando a composição química das tintas.  A gente só deve fazê-lo quando o poema for opaco, quando a gente não estiver encaixando as frases, quando a conta não fechar. Aí, vale parar e tentar ler o poema como se fosse a resolução de uma equação, onde cada linha é um resultado lógico de uma operação invisível que ocorreu na mente do autor entre uma linha e a seguinte.

A terceira estrofe do poema de Drummond, “Memória”, diz assim: “As coisas tangíveis / tornam-se insensíveis / à palma da mão”. Sendo um poema sobre a perda amorosa, a primeira leitura destes versos refere-se à ausência – nossa mão, que antes sentia a presença de algo concreto, tocável, tangível, não a sente mais. Vejo uma sutileza curiosa no uso desta imagem da “palma da mão”.  Porque me parece que o ato de tocar, experimentar, acariciar algo se dá primeiro pelas pontas dos dedos, que funcionam para nós como as antenas de alguns insetos. O tato que temos nas pontas dos dedos é muito mais refinado e mais reconhecedor de diferenças do que a palma da nossa mão. Por que a palma da mão? Porque ela serve, mais do que para tocar, para reter. Para estabelecer a posse. Na informalidade dos bate-papos amorosos vangloriamo-nos dizendo: “Fulana tá aqui, olha, na minha mão” – e estendemos a palma para reforçar. Se algo não pode mais ser sentido na palma da nossa mão, não nos pertence mais.

Essa imagem me lembra os versos de outro poema do mesmo livro (“Claro Enigma”), o belíssimo “Campo de Flores”, onde o poeta diz: “Seu grão de angústia amor já me oferece / na mão esquerda. / Enquanto a outra acaricia / os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura / e o mistério que além faz os seres preciosos / à visão extasiada”. Esta imagem da mão acariciante me evoca os versos sensuais de Bob Dylan em “I Threw it All Away” (“Eu Joguei Tudo Fora”), canção de 1969: “Um dia eu tive montanhas na palma da minha mão / e rios que fluíam o dia inteiro...” E vejam com que delicadeza Drummond passa da mera posse física para a posse em seu sentido mais pleno, a posse da pessoa total e de tudo que ela inclui, ao dizer que a mão não acaricia apenas os “cabelos”, mas também a “voz”, o “passo”, a “arquitetura”...

E tem mais.  Observem o duplo sentido da palavra “insensível”.  Insensível é aquilo que não sente (“você é uma pessoa insensível”), e também aquilo que não pode ser sentido, imperceptível (“houve uma mudança insensível de temperatura”).  Portanto, as coisas que antes eram tocadas com as mãos já não são sentidas – nem sentem.  A ausência, como a presença, é um fenômeno recíproco. Tudo que toca é tocado. Toda mão que acaricia é também acariciada no mesmo gesto. E tudo que não podemos sentir também não nos sente.

É como a reciprocidade da dor, registrada em outro poema do mesmo livro, “A Um Varão, Que Acaba de Nascer”: “Este é de resto o mal / superior a todos: / a todos como a tudo / estamos presos. E / se tentas arrancar / o espinho de teu flanco, / a dor em ti rebate / a do espinho arrancado”. Quando a ausência se instaura, não existe mais sofrimento mútuo nem prazer mútuo: apenas a falta de contato entre duas “coisas” que, mesmo tangíveis, mesmo possíveis de alcançar com a mão, não se sentem mais uma à outra.

O poema “Memória” de Carlos Drummond de Andrade (no livro “Claro Enigma”) se encerra com esta singela estrofe: “Mas as coisas findas / muito mais que lindas / estas ficarão”.  É uma estrofe perfeita, em todos os sentidos, para fechar este poema sobre a perda e a ausência.
É um poema minúsculo e de grande simetria, mesmo admitindo as variações de ritmo. A simetria é reforçada pela reiteração de rimas toantes centradas na vogal “I” nas linhas 1 e 2 de cada estrofe, e na sonoríssima rima em “ÃO” nas terceiras linhas.

O poeta fala da perda daquilo que foi amado, mas se consola dizendo que existe algo mais importante do que as coisas lindas: são as coisas findas. “Findas” significa encerradas, terminadas.  As coisas que acabaram, ficarão. Vejam que belo paradoxo!  Nossa sensação intuitiva é de que se essas coisas se acabaram, não ficaram. Drummond sugere o contrário. As coisas findas ficarão porque provavelmente se cristalizaram, despregaram-se da realidade (que é fluxo, transformação, incerteza) e tornaram-se Forma, Idéia – tornaram-se Memória.  Vejam com que segurança o poeta usa este termo no futuro, “ficarão”. Me lembra o que disse Mário Quintana: “Esses que aí estão / atravancando meu caminho / eles passarão / eu passarinho”. É como se dissesse: “eles passarão, eu ficarei”.

Que passarinho é este que fica? Penso eu que seja o rouxinol cantado celebremente pelo inglês John Keats, no poema “Ode To a Nightingale”, que examino no capítulo “S” do “ABC de Ariano Suassuna”. É o pássaro imortal que canta o mesmo canto por toda a eternidade. É a memória, que preserva em sua essência as coisas findas. Que na ficção científica foi assim definida por Frank Herbert (“Duna”): “Arrakis ensina a mentalidade da faca: cortar aquilo que está incompleto e dizer – Agora está completo porque termina aqui”.



CONVERSA DE BOTAS BATIDAS

CÍCERO
(Marcelo Camelo + Carlos Drummond de Andrade)



Veja você, onde é que o barco foi desaguar
A gente só queria um amor
Deus parece às vezes se esquecer
Ai, não fala isso, por favor
Esse é só o começo do fim da nossa vida
Deixa chegar o sonho, prepara uma avenida
Que a gente vai passar

Veja você, quando é que tudo foi desabar
A gente corre pra se esconder
E se amar, se amar até o fim
Sem saber que o fim já vai chegar
Deixa o moço bater
Que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos
Pra um amor de tantas rugas
Não ter o seu lugar

Abre a janela agora
Deixa que o sol te veja
É só lembrar que o amor é tão maior
Que estamos sós no céu
Abre as cortinas pra mim
Que eu não me escondo de ninguém
O amor já desvendou nosso lugar
E agora está de bem

"Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão."

Deixa o moço bater
Que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos
Pra um amor de tantas rugas
Não ter o seu lugar

Diz, quem é maior que o amor?
Me abraça forte agora, que é chegada a nossa hora
Vem, vamos além
Vão dizer, que a vida é passageira
Sem lembrar que a nossa estrela vai cair.

ORAÇÃO

A BANDA MAIS BONITA DA CIDADE




Meu amor essa é a última oração


Pra salvar seu coração

Coração não é tão simples quanto pensa

Nele cabe o que não cabe na despensa

Cabe o meu amor!


Cabem três vidas inteiras

Cabe uma penteadeira

Cabe nós dois

Cabe até o meu amor, essa é a última oração


Pra salvar seu coração

Coração não é tão simples quanto pensa

Nele cabe o que não cabe na despensa

Cabe o meu amor!


Cabem três vidas inteiras

Cabe uma penteadeira

Cabe nós dois

Cabe até o meu amor, essa é a última oração


Pra salvar seu coração

Coração não é tão simples quanto pensa

Nele cabe o que não cabe na despensa

Cabe o meu amor!


Cabem três vidas inteiras

Cabe uma penteadeira

Cabe essa oração

quinta-feira, maio 24, 2012



MOSAICO

Telepático sentir do teu querer
Meu amor é um transatlântico
A navegar pelos teus mares
Sentindo os teus sabores
E o gosto, gozo fantástico
Da boca macia do amanhecer...
Metáfora
 
Uma lata existe para conter algo
Mas quando o poeta diz: "Lata"
Pode estar querendo dizer o incontível

Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz: "Meta"
Pode estar querendo dizer o inatingível

Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudo/nada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível

Deixe a meta do poeta, não discuta
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora

Gilberto Gil


 
 
Primavera nos Dentes
 
“Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra mola que resiste
Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera”

João Ricardo e João Apolinário

quarta-feira, maio 23, 2012

 
Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.

Torquato Neto

domingo, março 25, 2012



A MENININHA COM BRINCO DE PÉROLA

Escrevo este brinco que você disse
De cores variadas e montagem engendrada por mãos hábeis
Tipo um Matisse
Por vezes não compreendido ou depreciado pelas mentes débeis
Que crescem nas trevas das terras estéreis, num ventre seco abaixo da superfície
Entre o lodo e escuro barro
Onde se fez o escarro do escárnio
A sujeira e imundície.

PF/RS 45ºC

Miragens no calor do verão:
Teus lindos e durinhos peitinhos suados
Encontro-te com minha mão
Deslizando-a por tua pele e cabelos molhados
Engulo-te com meus olhos, minha língua e boca faminta
Aperto-te às vezes com força a fim de que me sinta
Beijo-te e mordo teu lábio
Tu és minha borboleta e eu teu sábio chinês.

Nothing's gonna change my world
Nada vai mudar meu mundo

Palavras desconexas flutuam como uma fria chuva fina sem fim dentro de uma taça de cristal
Elas vibram enquanto deslizam através do Universo
Piscinas de mágoas, ondas de alegrias passando por minha mente, coisas e tal
Possuindo e acariciando o verso.

Trem no trilho trágico
Trinca na mega
Número mágico
Pode correr que não me pega
E se pega não leva, não sou brinquedo de plástico
Mesmo acertando não ganha
Mesmo batendo apanha.
Uns têm esperteza
Outros têm a manha.

Muitos têm tão pouco e poucos têm tanto
Pontes entre o aqui e agora
Espaço tempo acessado pelo pensamento
Refinamento do processo cognitivo
O Universo me chamando para ir embora.