London B&W
(ARTES & IDEIAS) - Poesia - Literatura - Música - Pintura - Fotografia - Religião - Filosofia
domingo, julho 06, 2014
sexta-feira, junho 27, 2014
(Piérce
Willians / As Irmãs da Providência)
A
neblina apaga o sol, sufocando o meu bem querer;
Desde quando você me deixou, esta vida é feito morrer.
E eu já fui mais bonito e eu já fui mais feliz;
Hoje, nem acredito:
Só sei viver por um triz...
Mas eu te quero de volta, nem que seja uma vez;
Nem que seja um adeus e até ‘nunca mais’.
Nenhum adeus é pra sempre e nem o sempre é jamais:
A tristeza da gente é acordar pra viver.
A tristeza da gente é acordar pra viver;
A tristeza da gente é acordar pra viver...
Desde quando você me deixou, esta vida é feito morrer.
E eu já fui mais bonito e eu já fui mais feliz;
Hoje, nem acredito:
Só sei viver por um triz...
Mas eu te quero de volta, nem que seja uma vez;
Nem que seja um adeus e até ‘nunca mais’.
Nenhum adeus é pra sempre e nem o sempre é jamais:
A tristeza da gente é acordar pra viver.
A tristeza da gente é acordar pra viver;
A tristeza da gente é acordar pra viver...
A Nossa Vitória de cada Dia
Olhe para todos ao seu redor e veja
o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não
temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende
porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por
não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que não tenha sido
catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as
catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos
temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a
tememos.
Temos evitado cair de joelhos diante
do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e
clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar
mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes.
Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer a sua contextura
de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em
segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível. Muitos de nós fazem
arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a
nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos
disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no
que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe.
Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer «pelo menos não fui tolo» e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.
Clarice Lispector, in 'Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres'
SAIBA
Arnaldo
Antunes
Saiba,
Todo mundo foi neném
Einstein, Freud e Platão também
Hitler, Bush e Sadam Hussein
Quem tem grana e quem não tem
Todo mundo foi neném
Einstein, Freud e Platão também
Hitler, Bush e Sadam Hussein
Quem tem grana e quem não tem
Saiba:
Todo mundo teve infância
Maomé já foi criança
Arquimedes, Buda, Galileu
e também você e eu
Todo mundo teve infância
Maomé já foi criança
Arquimedes, Buda, Galileu
e também você e eu
Saiba,
Todo mundo teve medo
Mesmo que seja segredo
Nietzsche e Simone de Beauvoir
Fernandinho Beira-Mar
Todo mundo teve medo
Mesmo que seja segredo
Nietzsche e Simone de Beauvoir
Fernandinho Beira-Mar
Saiba,
Todo mundo vai morrer
Presidente, general ou rei
Anglo-saxão ou muçulmano
Todo e qualquer ser humano
Todo mundo vai morrer
Presidente, general ou rei
Anglo-saxão ou muçulmano
Todo e qualquer ser humano
Saiba,
Todo mundo teve pai
Quem já foi e quem ainda vai
Lao Tsé, Moisés, Ramsés, Pelé
Ghandi, Mike Tyson, Salomé
Todo mundo teve pai
Quem já foi e quem ainda vai
Lao Tsé, Moisés, Ramsés, Pelé
Ghandi, Mike Tyson, Salomé
Saiba,
Todo mundo teve mãe
Índios, africanos e alemães
Nero, Che Guevara, Pinochet
e também eu e você.
Todo mundo teve mãe
Índios, africanos e alemães
Nero, Che Guevara, Pinochet
e também eu e você.
quarta-feira, junho 25, 2014
URBANOSOFIA
A cidade frita,
Em cada uma das suas esquinas,
Entre os seus sinuosos escuros rios,
Asfalto fervente e brita.
Amplia-se pelos becos,
De caminhos estreitos,
E grandes buracos,
Feito trepadeira,
Em avenidas tentáculos,
Por terrenos baldios,
Infestados de baratas e ratos,
Pelas multidões delirantes.
Na sincity são comuns as pragas,
Algumas mutantes,
Políticos e contribuintes,
Salvam-se os museus, as bibliotecas,
as flores e os muros grafitados com a arte que resta,
O resto da necessidade pictórica,
Num arremedo que retrata a vida
caricata psicótica
E o roto urbano calafrio.
O som do silêncio!
Aos olhos cegos e frios,
Em febre convulsa,
Tremendo na base,
A urbe geme!
Mas as paredes são surdas...
Espaço-ambiente em perplexidade,
Grito e buzinas,
Noise,
Mundo hipertélico (sem finalidade
para ótica midiática),
A expansão demográfica geográfica
alucina,
Arquitetura gelatina,
Diante de tanto concreto,
Diante de tanto cinza,
Preto e branco,
Vela derretida,
Fotografia apagada,
Filme velado,
Diante de um prisma com tantas luzes
brilhantes,
Num reflexo de modernidade,
Desconexo cintilante,
Que forma a paisagem de sentimentos.
A cidade é aonde você corre mais para
poder ficar no mesmo lugar.
Habitamos numa floresta de símbolos,
Sem árvores,
Um cemitério de sensações e memórias
vazias...
Você cidade,
É ainda crua,
Um pálido devaneio,
Parecendo desenho sem claridade,
Do murcho seio,
Ou talvez uma vidraça suja e embaçada,
Imersa na perversa e intrincada
urbanosofia...
Trincada pelo
Stress sistemático,
Que desafia
O complexo,
O caótico viver da guerrilha urbana,
Numa luta contra grades, paredes,
muros e pedras,
Onde talvez,
De maneira eficaz,
Somente a poesia,
Seja capaz,
Numa noite de chuva fria,
De atravessá-las...
Em busca de um universo perdido,
O mundo paralelo das nossas
satisfações.
Você praça,
Acho graça!
Clowncity palhaça.
Você prédio,
Acho tédio!
Não queira tapar meu horizonte e os
olhos da rua,
Pois isto só permito para a
luminosa lua.
terça-feira, junho 18, 2013
O Amor é... !?
O amor é o início. O amor é o
meio. O amor é o fim. O amor faz-te pensar, faz-te sofrer, faz-te agarrar o
tempo, faz-te esquecer o tempo. O amor obriga-te a escolher, a separar, a
rejeitar. O amor castiga-te. O amor compensa-te. O amor é um prêmio e um
castigo. O amor fere-te, o amor salva-te, o amor é um farol e um naufrágio. O
amor é alegria. O amor é tristeza. É ciúme, orgasmo, êxtase. O nós, o outro, a
ciência da vida.
O amor é um pássaro. Uma
armadilha. Uma fraqueza e uma força.
O amor é uma inquietação, uma
esperança, uma certeza, uma dúvida. O amor dá-te asas, o amor derruba-te, o
amor assusta-te, o amor promete-te, o amor vinga-te, o amor faz-te feliz.
O amor é um caos, o amor é uma
ordem. O amor é um mágico. E um palhaço. E uma criança. O amor é um
prisioneiro. E um guarda.
Uma sentença. O amor é um
guerrilheiro. O amor comanda-te. O amor ordena-te. O amor rouba-te. O amor
mata-te.
O amor lembra-te. O amor
esquece-te. O amor respira-te. O amor sufoca-te. O amor é um sucesso. E um fracasso.
Uma obsessão. Uma doença. O rasto de um cometa. Um buraco negro. Uma estrela.
Um dia azul. Um dia de paz.
O amor é um pobre. Um pedinte. O
amor é um rico. Um hipócrita, um santo. Um herói e um débil. O amor é um nome.
É um corpo. Uma luz. Uma cruz. Uma dor. Uma cor. Uma flor. É o teu sorriso.
O amor não se pode definir; e
talvez seja esta dualidade a sua melhor definição. Sendo em nós limitado o
modo de explicar os parodoxos e as antíteses, é infinito o modo de sentir; por
isso nem tudo o que se sabe sentir, se sabe dizer: o gosto, e a dor, não se
podem reduzir a palavras. A palavra é uma asa do silêncio. O amor não só tem
ocupado, e há de ocupar o coração dos homens, mas também os seus discursos;
porém por mais que a imaginação se esforce, tudo o que produzir a respeito do
amor, são átomos. Os que amam não têm livre o espírito para dizerem o que
sentem; e sempre acham que o que sentem é mais do que o que dizem; o mesmo amor
entorpece a idéia e lhes serve de embaraço: os que não amam, mal podem discorrer
sobre uma impressão, que ignoram; os que amaram são como a cinza fria, donde só
se reconhece o efeito da chama, e não a sua natureza; ou também como o cometa,
que depois de girar a esfera, sem deixar vestígio algum, desaparece.
O Amor, portanto, não se define;
sente-se.
MEMÓRIA
Ler um poema é deduzir
referências que o poeta deixa implícitas ou que vamos suprindo por conta
própria, como se junto de cada frase do poema houvesse um asterisco remetendo
para uma nota ao pé da página – só que a nota está em branco, e cabe ao leitor
preenchê-la. Tem um poema de Carlos Drummond de Andrade que parece um dos mais
simples. É o poeminha “Memória” (em “Claro Enigma”, de 1951). Diz o poema:
“Amar o perdido / deixa confundido / este coração. // Nada pode o olvido /
contra o sem sentido / apelo do Não. // As coisas tangíveis / tornam-se
insensíveis / à palma da mão. // Mas as coisas findas, / muito mais que lindas,
/ essas ficarão”.
Quatro estrofes, cada uma com
quinze sílabas métricas, numa cadência 5-5-5 cujo ritmo implacável é reforçado
pelo “ão” com que se encerram. A estrofe inicial não tem mistério: “Amar o
perdido deixa confundido este coração”. À primeira vista é o tema da perda da
pessoa amada, um dos grandes lugares comuns da poesia lírica. Mas eu penso que
Drummond se refere a algo mais sutil: o amor que só brota após a perda. Como
ocorre com a amante do poema “Caso do vestido” (em “A Rosa do Povo”), que
confessa à mulher cujo marido roubou: “Eu não tinha amor por ele / ao depois
amor pegou”. Ou então a fórmula que ele estabelece no poema “Perguntas” (também
em “Claro enigma”), em que o Poeta vê um “fantasma” no espelho trazendo-lhe
recordações da infância e dizendo-lhe, ao se despedir: “Amar, depois de
perder”. O que talvez seja a versão drummondiana para outro lugar comum: “eu
era feliz e não sabia”.
Amar o perdido confunde o coração
do poeta porque insinua a possibilidade de que na verdade só amamos o que não
temos. Nosso objeto preferencial de amor é o sonho, a utopia, o inalcançável –
ou, mais realistamente, o ainda inalcançado. Somos todos Don Juans a quem a
conquista fascina e a posse provoca o tédio. Ou então somos crianças
freudianamente impelidas por pulsões de tal magnitude que nada as satisfaz, nem
mesmo a conquista do objeto desejado. O desejo que não foi satisfeito hoje
nunca poderá ser satisfeito amanhã, porque nesse caso estaremos satisfazendo
apenas o desejo de amanhã. Basta ter desejado em vão por um minuto para
continuar desejando por toda a Eternidade.
O verdadeiro desejo nunca é
satisfeito, porque o que no fundo desejamos é um objeto total, um arquétipo
platônico que funde em si todas as possibilidades daquele ser – e o que obtemos
na vida real é o objeto real, com suas incompletudes e defeitos. É como desejar
o Oceano e poder apenas encher as mãos em concha. Amamos o que é conquistado,
mas amamos ainda mais o que não conquistamos, porque é um sonho que não se
desvalorizou em realidade.
A segunda estrofe do poema
“Memória” de Carlos Drummond de Andrade (em “Claro Enigma”) diz: “Nada pode o
olvido / contra o sem sentido / apelo do Não”. É um poema sobre a perda
amorosa, à primeira vista muito simples, mas a facilidade de Drummond é enganosa.
É preciso deixar claro que o poeta se refere ao Olvido, o Esquecimento. Já vi
esse poema transcrito por aí com o absurdo erro: “Nada pode o ouvido...”
Portanto, o Esquecimento nada
pode contra o apelo absurdo, o apelo sem significado do Não. O Poeta parece
estar dizendo que o Não (a negação, a impossibilidade, a proibição, a ausência,
todos os correlatos dessa idéia básica) tem um apelo sem sentido. Esse “apelo”
do Não, não é uma imagem poética que me diga alguma coisa. Podia ser uma porção
de coisas relativas ao Não, mas... apelo? Posso explicar racionalmente o uso
dessa palavra, mas um verso, como uma piada, não é para ser explicado, é para
ser apreendido num segundo. Se isto não acontece, de nada adianta explicar. O
“apelo do Não”, portanto, é uma imagem poética que me entra por um ouvido e sai
pelo outro.
Mas enfim – o Poeta nos garante
que o apelo do Não existe, e que é algo contra o qual nada pode o Esquecimento,
o Olvido. O Não impõe suas próprias regras às quais não podemos fugir, e à luz
da primeira estrofe (“Amar o perdido deixa confundido este coração”) podemos
aceitar que este Não se refere à perda, à ausência, à impossibilidade de ter ou
de continuar tendo. E contra isto, nada pode o esquecimento. É inútil (ou é
impossível) esquecer a perda, mesmo que ela seja sem sentido.
Analisar um poema desse jeito é
uma coisa chata, que eu comparo com querer interpretar um quadro da Van Gogh
analisando a composição química das tintas.
A gente só deve fazê-lo quando o poema for opaco, quando a gente não
estiver encaixando as frases, quando a conta não fechar. Aí, vale parar e
tentar ler o poema como se fosse a resolução de uma equação, onde cada linha é
um resultado lógico de uma operação invisível que ocorreu na mente do autor
entre uma linha e a seguinte.
A terceira estrofe do poema de
Drummond, “Memória”, diz assim: “As coisas tangíveis / tornam-se insensíveis /
à palma da mão”. Sendo um poema sobre a perda amorosa, a primeira leitura
destes versos refere-se à ausência – nossa mão, que antes sentia a presença de
algo concreto, tocável, tangível, não a sente mais. Vejo uma sutileza curiosa
no uso desta imagem da “palma da mão”.
Porque me parece que o ato de tocar, experimentar, acariciar algo se dá
primeiro pelas pontas dos dedos, que funcionam para nós como as antenas de
alguns insetos. O tato que temos nas pontas dos dedos é muito mais refinado e
mais reconhecedor de diferenças do que a palma da nossa mão. Por que a palma da
mão? Porque ela serve, mais do que para tocar, para reter. Para estabelecer a
posse. Na informalidade dos bate-papos amorosos vangloriamo-nos dizendo:
“Fulana tá aqui, olha, na minha mão” – e estendemos a palma para reforçar. Se
algo não pode mais ser sentido na palma da nossa mão, não nos pertence mais.
Essa imagem me lembra os versos
de outro poema do mesmo livro (“Claro Enigma”), o belíssimo “Campo de Flores”,
onde o poeta diz: “Seu grão de angústia amor já me oferece / na mão esquerda. /
Enquanto a outra acaricia / os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura / e o
mistério que além faz os seres preciosos / à visão extasiada”. Esta imagem da
mão acariciante me evoca os versos sensuais de Bob Dylan em “I Threw it All
Away” (“Eu Joguei Tudo Fora”), canção de 1969: “Um dia eu tive montanhas na
palma da minha mão / e rios que fluíam o dia inteiro...” E vejam com que
delicadeza Drummond passa da mera posse física para a posse em seu sentido mais
pleno, a posse da pessoa total e de tudo que ela inclui, ao dizer que a mão não
acaricia apenas os “cabelos”, mas também a “voz”, o “passo”, a “arquitetura”...
E tem mais. Observem o duplo sentido da palavra
“insensível”. Insensível é aquilo que
não sente (“você é uma pessoa insensível”), e também aquilo que não pode ser
sentido, imperceptível (“houve uma mudança insensível de temperatura”). Portanto, as coisas que antes eram tocadas
com as mãos já não são sentidas – nem sentem.
A ausência, como a presença, é um fenômeno recíproco. Tudo que toca é
tocado. Toda mão que acaricia é também acariciada no mesmo gesto. E tudo que
não podemos sentir também não nos sente.
É como a reciprocidade da dor,
registrada em outro poema do mesmo livro, “A Um Varão, Que Acaba de Nascer”:
“Este é de resto o mal / superior a todos: / a todos como a tudo / estamos
presos. E / se tentas arrancar / o espinho de teu flanco, / a dor em ti rebate
/ a do espinho arrancado”. Quando a ausência se instaura, não existe mais
sofrimento mútuo nem prazer mútuo: apenas a falta de contato entre duas
“coisas” que, mesmo tangíveis, mesmo possíveis de alcançar com a mão, não se
sentem mais uma à outra.
O poema “Memória” de Carlos
Drummond de Andrade (no livro “Claro Enigma”) se encerra com esta singela estrofe:
“Mas as coisas findas / muito mais que lindas / estas ficarão”. É uma estrofe perfeita, em todos os sentidos,
para fechar este poema sobre a perda e a ausência.
É um poema minúsculo e de grande
simetria, mesmo admitindo as variações de ritmo. A simetria é reforçada pela
reiteração de rimas toantes centradas na vogal “I” nas linhas 1 e 2 de cada
estrofe, e na sonoríssima rima em “ÃO” nas terceiras linhas.
O poeta fala da perda daquilo que
foi amado, mas se consola dizendo que existe algo mais importante do que as
coisas lindas: são as coisas findas. “Findas” significa encerradas,
terminadas. As coisas que acabaram, ficarão.
Vejam que belo paradoxo! Nossa sensação
intuitiva é de que se essas coisas se acabaram, não ficaram. Drummond sugere o
contrário. As coisas findas ficarão porque provavelmente se cristalizaram,
despregaram-se da realidade (que é fluxo, transformação, incerteza) e
tornaram-se Forma, Idéia – tornaram-se Memória.
Vejam com que segurança o poeta usa este termo no futuro, “ficarão”. Me
lembra o que disse Mário Quintana: “Esses que aí estão / atravancando meu
caminho / eles passarão / eu passarinho”. É como se dissesse: “eles passarão,
eu ficarei”.
Que passarinho é este que fica?
Penso eu que seja o rouxinol cantado celebremente pelo inglês John Keats, no
poema “Ode To a Nightingale”, que examino no capítulo “S” do “ABC de Ariano
Suassuna”. É o pássaro imortal que canta o mesmo canto por toda a eternidade. É
a memória, que preserva em sua essência as coisas findas. Que na ficção
científica foi assim definida por Frank Herbert (“Duna”): “Arrakis ensina a mentalidade
da faca: cortar aquilo que está incompleto e dizer – Agora está completo porque
termina aqui”.
CONVERSA DE BOTAS BATIDAS
CÍCERO
(Marcelo Camelo + Carlos Drummond de Andrade)
Veja você, onde é que o barco foi desaguar
A gente só queria um amor
Deus parece às vezes se esquecer
Ai, não fala isso, por favor
Esse é só o começo do fim da nossa vida
Deixa chegar o sonho, prepara uma avenida
Que a gente vai passar
Veja você, quando é que tudo foi desabar
A gente corre pra se esconder
E se amar, se amar até o fim
Sem saber que o fim já vai chegar
Deixa o moço bater
Que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos
Pra um amor de tantas rugas
Não ter o seu lugar
Abre a janela agora
Deixa que o sol te veja
É só lembrar que o amor é tão maior
Que estamos sós no céu
Abre as cortinas pra mim
Que eu não me escondo de ninguém
O amor já desvendou nosso lugar
E agora está de bem
"Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão."
Deixa o moço bater
Que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos
Pra um amor de tantas rugas
Não ter o seu lugar
Diz, quem é maior que o amor?
Me abraça forte agora, que é chegada a nossa hora
Vem, vamos além
Vão dizer, que a vida é passageira
Sem lembrar que a nossa estrela vai cair.
ORAÇÃO
A BANDA MAIS BONITA DA CIDADE
Meu amor essa é a última oração
Pra salvar seu coração
Coração não é tão simples quanto pensa
Nele cabe o que não cabe na despensa
Cabe o meu amor!
Cabem três vidas inteiras
Cabe uma penteadeira
Cabe nós dois
Cabe até o meu amor, essa é a última oração
Pra salvar seu coração
Coração não é tão simples quanto pensa
Nele cabe o que não cabe na despensa
Cabe o meu amor!
Cabem três vidas inteiras
Cabe uma penteadeira
Cabe nós dois
Cabe até o meu amor, essa é a última oração
Pra salvar seu coração
Coração não é tão simples quanto pensa
Nele cabe o que não cabe na despensa
Cabe o meu amor!
Cabem três vidas inteiras
Cabe uma penteadeira
Cabe essa oração
quinta-feira, maio 24, 2012
Metáfora
Uma lata existe para conter algo
Mas quando o poeta diz: "Lata"
Pode estar querendo dizer o incontível
Mas quando o poeta diz: "Lata"
Pode estar querendo dizer o incontível
Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz: "Meta"
Pode estar querendo dizer o inatingível
Mas quando o poeta diz: "Meta"
Pode estar querendo dizer o inatingível
Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudo/nada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudo/nada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível
Deixe a meta do poeta, não discuta
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora
Gilberto Gil
Primavera nos Dentes
“Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra mola que resiste
Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera”
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra mola que resiste
Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera”
João Ricardo e João Apolinário
quarta-feira, maio 23, 2012
Cogito
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.
Torquato Neto
domingo, março 25, 2012

A MENININHA COM BRINCO DE PÉROLA
Escrevo este brinco que você disse
De cores variadas e montagem engendrada por mãos hábeis
Tipo um Matisse
Por vezes não compreendido ou depreciado pelas mentes débeis
Que crescem nas trevas das terras estéreis, num ventre seco abaixo da superfície
Entre o lodo e escuro barro
Onde se fez o escarro do escárnio
A sujeira e imundície.

PF/RS 45ºC
Miragens no calor do verão:
Teus lindos e durinhos peitinhos suados
Encontro-te com minha mão
Deslizando-a por tua pele e cabelos molhados
Engulo-te com meus olhos, minha língua e boca faminta
Aperto-te às vezes com força a fim de que me sinta
Beijo-te e mordo teu lábio
Tu és minha borboleta e eu teu sábio chinês.

Nothing's gonna change my world
Nada vai mudar meu mundo
Palavras desconexas flutuam como uma fria chuva fina sem fim dentro de uma taça de cristal
Elas vibram enquanto deslizam através do Universo
Piscinas de mágoas, ondas de alegrias passando por minha mente, coisas e tal
Possuindo e acariciando o verso.
Trem no trilho trágico
Trinca na mega
Número mágico
Pode correr que não me pega
E se pega não leva, não sou brinquedo de plástico
Mesmo acertando não ganha
Mesmo batendo apanha.
Uns têm esperteza
Outros têm a manha.
Muitos têm tão pouco e poucos têm tanto
Pontes entre o aqui e agora
Espaço tempo acessado pelo pensamento
Refinamento do processo cognitivo
O Universo me chamando para ir embora.
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