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sexta-feira, abril 15, 2016
A Democracia Política
Conduz à Ineficiência e Fraqueza de Direção
Os defeitos da democracia
política como sistema de governo são tão óbvios, e têm sido tantas vezes
catalogados, que não preciso mais do que resumi-los aqui. A democracia política
foi criticada porque conduz à ineficiência e fraqueza de direção, porque permite
aos homens menos desejáveis obter o poder, porque fomenta a corrupção. A
ineficiência e fraqueza da democracia política tornam-se mais aparentes nos
momentos de crise, quando é preciso tomar e cumprir decisões rapidamente.
Averiguar e registrar os desejos de muitos milhões de eleitores em poucas horas
é uma impossibilidade física. Segue-se, portanto, que, numa crise, uma de duas
coisas tem de acontecer: ou os governantes decidem apresentar o fato consumado
da sua decisão aos eleitores - em cujo caso todo o princípio da democracia
política terá sido tratado com o desprezo que em circunstâncias críticas ela
merece; ou então o povo é consultado e perde-se tempo, frequentemente, com
consequências fatais. Durante a guerra todos os beligerantes adotaram o primeiro
caminho. A democracia política foi em toda a parte temporariamente abolida. Um
sistema de governo que necessita de ser abolido todas as vezes que surge um
perigo, dificilmente se pode descrever como um sistema perfeito.
Aldous Huxley, in "Sobre a Democracia e Outros Estudos"
A Democracia como Círculo Vicioso Desonesto
Não estamos em condições de nos
salvar a nós próprios, sobre isso não restam dúvidas. Falamos em democracia,
mas ela é apenas a expressão política para um estado de espírito caracterizado
pelo «Pode ser assim, mas também de outro modo». Vivemos na época do boletim de
voto. Até votamos todos os anos no nosso ideal sexual, a rainha da beleza, e o
fato de termos transformado a ciência no nosso ideal intelectual não significa
mais do que pôr na mão dos chamados fatos um boletim de voto, para que eles
escolham por nós. Este tempo é antifilosófico e cobarde: não tem coragem para
decidir o que tem ou não tem valor, e a democracia, reduzida à sua expressão
mais simples, significa: Fazer aquilo que acontece! Diga-se de passagem que é
um dos mais desonestos círculos viciosos que alguma vez existiu na história da
nossa raça.
Robert Musil, in 'O Homem sem Qualidades'
A Esquerda e a Direita
Os políticos que se dizem de
esquerda, por ser o bom sítio de se ser político, estão sempre a afirmar que
são de esquerda, não vá a gente esquecer-se ou julgar que mudaram de poiso. Mas
dito isso, não é preciso ter de explicar de que sítio são os atos que a
necessidade política os vai obrigando a praticar. Como os de direita, aliás,
que é um lugar mais espinhoso. O que importa é dizerem onde instalaram a sua
reputação, na ideia de que o nome é que dá a realidade às coisas. E se antes
disso nos explicassem o que é isso de ser de esquerda ou de direita? Nós
trabalhamos com papéis que não sabemos se têm cobertura, como no faz-de-conta
infantil. Mas o que é curioso é que o comércio político funciona à mesma com os
cheques sem cobertura. E ninguém tira a limpo esse abuso de confiança, para as
cadeias existirem. Mas o homem é um ser fictício em todo o seu ser. E é precisa
a morte para ele enfim ser verdadeiro.
Vergílio Ferreira, in 'Pensar'
A Esquerda Deixou de Ser Esquerda
A direita nunca deixou de ser
direita, mas a esquerda deixou de ser esquerda. A explicação pode parecer
simplista, mas é a única que contempla todos os aspectos da questão. Para serem
participantes mais ou menos tolerados nos jogos do poder, os partidos de
esquerda correram todos para o centro, onde, infalivelmente, se encontraram com
uma direita política e econômica já instalada que não tinha necessidade de se
camuflar de centro. Entrou-se, então, na farsa carnavalesca de denominações
caricaturais com as de centro-esquerda ou centro-direita. Assim está Portugal,
a Itália, a Europa.
José Saramago, in 'La Republica (2007)'
A Crise da Democracia
É natural que a
crise da democracia, impossível de negar, se revele sob o aspecto de sucessivas
crises políticas. Mas para quê jogar com as palavras? Quando a máquina se
desarranja, frequentemente, por melhor eco e por mais vistosas engrenagens que
possua, torna-se urgente pô-la de lado como inútil, aproveitando-lhe, é claro,
as inovações, tudo o que for suscetível de aplicar a outra máquina...
(...) Não é possível negar certas verdades e conquistas da democracia que são hoje indispensáveis à vida de todos os regimes. Mas os sistemas propriamente ditos, na sua inteireza, nascem, vivem e morrem como os homens. As escolas políticas e sociais são como as escolas literárias. Esgotada a sua capacidade criadora, a sua flama, perdem a força, extinguem-se, depois de terem deixado a sua marca, o traço profundo da sua influência. Os próprios defensores da democracia procuram transigir com o espírito do seu tempo, confessando e admitindo a necessidade de modificar o sistema das suas ideias, de renovar os órgãos da democracia. Mas que propõem eles, afinal, para que se efetive essa renovação? Medidas ridículas que não se adaptam ao próprio sistema: ligeiras alterações no regulamento interno das Câmaras, limitações no tempo dos discursos, restrições no uso da palavra, etc., etc.. Paliativos ingênuos que não resolvem nada, que pretendem, apenas, prolongar a pobre vida dum sistema agonizante... Negar a crise da democracia seria negar a evidência, o panorama político da nossa época...
António de Oliveira Salazar, in 'Imprensa (1932)'
A Corrupção é Proporcional à Democracia
Os homens são atormentados pelo
pecado original dos seus instintos antissociais, que permanecem mais ou menos
uniformes através dos tempos. A tendência para a corrupção está implantada na
natureza humana desde o princípio. Alguns homens têm força suficiente para
resistir a essa tendência, outros não a têm. Tem havido corrupção sob todo o
sistema de governo. A corrupção sob o sistema democrático não é pior, nos casos
individuais, do que a corrupção sob a autocracia. Há meramente mais, pela
simples razão de que onde o governo é popular, mais gente tem oportunidade para
agir corruptamente à custa do Estado do que nos países onde o governo é
autocrático. Nos estados autocraticamente organizados, o espólio do governo é compartilhado
entre poucos. Nos estados democráticos há muito mais pretendentes, que só podem
ser satisfeitos com uma quantidade muito maior de espólio que seria necessário
para satisfazer os poucos aristocratas. A experiência demonstrou que o governo
democrático é geralmente muito mais dispendioso do que o governo por
poucos.
Aldous Huxley, in 'Sobre a Democracia e Outros Estudos'
quinta-feira, janeiro 07, 2016
terça-feira, dezembro 08, 2015
quinta-feira, novembro 26, 2015
quarta-feira, novembro 25, 2015
terça-feira, novembro 24, 2015
quarta-feira, setembro 16, 2015
segunda-feira, julho 27, 2015
DEFICIÊNCIAS
"Deficiente": é aquele que não consegue modificar
sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que
vive, sem ter consciência de que é dono do seu destino.
"Louco": é quem não procura ser feliz com o que possui.
"Cego": é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria, e só têm olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.
"Surdo": é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo, ou o apelo de um irmão. Pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir seus tostões no fim do mês.
"Mudo": é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia.
"Paralítico": é quem não consegue andar na direção daqueles que precisam de sua ajuda.
"Diabético": é quem não consegue ser doce.
"Anão": é quem não sabe deixar o amor crescer.
E, finalmente, a pior das deficiências é ser miserável, pois:
"Miseráveis": são todos que não conseguem falar com Deus.
"Louco": é quem não procura ser feliz com o que possui.
"Cego": é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria, e só têm olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.
"Surdo": é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo, ou o apelo de um irmão. Pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir seus tostões no fim do mês.
"Mudo": é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia.
"Paralítico": é quem não consegue andar na direção daqueles que precisam de sua ajuda.
"Diabético": é quem não consegue ser doce.
"Anão": é quem não sabe deixar o amor crescer.
E, finalmente, a pior das deficiências é ser miserável, pois:
"Miseráveis": são todos que não conseguem falar com Deus.
Mário
Quintana
A
Racionalidade Irracional
Eu digo muitas vezes que o instinto serve
melhor os animais do que a razão a nossa espécie. E o instinto serve melhor os
animais porque é conservador, defende a vida. Se um animal come outro, come-o
porque tem de comer, porque tem de viver; mas quando assistimos a cenas de
lutas terríveis entre animais, o leão que persegue a gazela e que a morde e que
a mata e que a devora, parece que o nosso coração sensível dirá «que coisa tão
cruel». Não: quem se comporta com crueldade é o homem, não é o animal, aquilo
não é crueldade; o animal não tortura, é o homem que tortura. Então o que eu
critico é o comportamento do ser humano, um ser dotado de razão, razão
disciplinadora, organizadora, mantenedora da vida, que deveria sê-lo e que não o
é; o que eu critico é a facilidade com que o ser humano se corrompe, com que se
torna maligno.
Aquela ideia que temos da esperança nas
crianças, nos meninos e nas meninas pequenas, a ideia de que são seres
aparentemente maravilhosos, de olhares puros, relativamente a essa ideia eu
digo: pois sim, é tudo muito bonito, são de fato muito simpáticos, são
adoráveis, mas deixemos que cresçam para sabermos quem realmente são. E quando
crescem, sabemos que infelizmente muitas dessas inocentes crianças vão modificar-se.
E por culpa de quê? É a sociedade a única responsável? Há questões de ordem
hereditária? O que é que se passa dentro da cabeça das pessoas para serem uma
coisa e passarem a ser outra? Uma sociedade que instituiu, como valores a perseguir, esses que nós sabemos, o
lucro, o êxito, o triunfo sobre o outro e todas estas coisas, essa sociedade
coloca as pessoas numa situação em que acabam por pensar (se é que o dizem e
não se limitam a agir) que todos os meios são bons para se alcançar aquilo que
se quer.
Falamos muito ao longo destes últimos anos (e felizmente continuamos a falar) dos direitos humanos; simplesmente deixamos de falar de uma coisa muito simples, que são os deveres humanos, que são sempre deveres em relação aos outros, sobretudo. E é essa indiferença em relação ao outro, essa espécie de desprezo do outro, que eu me pergunto se tem algum sentido numa situação ou no quadro de existência de uma espécie que se diz racional. Isso, de fato, não posso entender, é uma das minhas grandes angústias.
Falamos muito ao longo destes últimos anos (e felizmente continuamos a falar) dos direitos humanos; simplesmente deixamos de falar de uma coisa muito simples, que são os deveres humanos, que são sempre deveres em relação aos outros, sobretudo. E é essa indiferença em relação ao outro, essa espécie de desprezo do outro, que eu me pergunto se tem algum sentido numa situação ou no quadro de existência de uma espécie que se diz racional. Isso, de fato, não posso entender, é uma das minhas grandes angústias.
José Saramago, in 'Diálogos com José Saramago'
Extravio
Onde
começo, onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?
Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.
Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo, a chamar-me.
Extraviei-me no tempo.
Onde estarão meus pedaços?
Muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.
Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em seu olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.
Ah, ser somente o presente:
esta manhã, esta sala.
Ferreira Gullar, in 'Antologia Poética'
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?
Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.
Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo, a chamar-me.
Extraviei-me no tempo.
Onde estarão meus pedaços?
Muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.
Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em seu olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.
Ah, ser somente o presente:
esta manhã, esta sala.
Ferreira Gullar, in 'Antologia Poética'
Espiritualidade Plena
Apesar de tudo, insisto. A despeito
de mim mesmo, teimo. Insisto e teimo por querer a eternidade. Alguém plantou
transcendência em minha alma. Mesmo diante do pavor de confundir
esperança com alucinação, não consigo dissimular minha obstinação pelo que está
além de mim. Preciso tornar-me peregrino que se descalça diante do Sagrado.
Deixar que o Mistério me deixe atônito. Desfazer-me de panos velhos para não
remendar-me com os andrajo de uma religiosidade rota.
Quero uma espiritualidade que
enfrente a verdade de existir com tudo o que a vida trouxer de bom ou de
ruim. Desejo viajar até as fronteiras do universo não como fuga, mas como
sede da grande Utopia – a mesma que move os Santos. Quero soprar o pavio
fumegante da minha voz profética para ser farol, mesmo em um vilarejo distante.
Anseio por uma espiritualidade que
esgote a soberba de minha onipotência e permita que a mesma bruma que empurra a
caravela empine a bandeira do meu combate. Preciso repensar a coragem para que
a minha força venha da fragilidade.
Almejo uma espiritualidade suave:
delicada como a mão da criança, indefesa como o olhar do cordeiro e
despretensiosa como o fluir do ribeiro. Necessito esvaziar-me do desejo de
brilhar – que a oração mais pura fique escondida no quarto onde durmo. Ainda
hei de encarar o apelo do poder como maldição. Qualquer glória só a Deus
pertence.
Desejo uma espiritualidade que não
se encaramuja. Que abre mão de palavras piedosas como disfarce e procura a
magia de viver na encarnação, fazendo do corpo o instrumento que transforma a
vida.
Suspiro por uma espiritualidade sem
fronteiras. Quero rasgar mapas para chamar o Próximo de meu irmão. Exorcizar o
medo de perder a reputação. Abrir espaço para que o excluído se sinta acolhido.
Sonho entender como o grão de trigo morre sem murmurar – por saber que carrega
o futuro em suas entranhas. Aspiro por uma espiritualidade que ame igualmente o
belo e o disforme, o funcional e o deficiente. E alimente a alma com as
cores do cotidiano: azul, preto, vermelho, amarelo, cinza, branco.
Ambiciono navegar e abrir mão de
atracar em qualquer Porto Seguro. Sem âncoras, continuar a singrar o
futuro como um oceano de possibilidades.
O
Estudo da Sabedoria Nunca Termina
Ao
estudo da sabedoria jamais havereis de pôr termo; não acabe ele antes de
acabada a vossa vida. Em três coisas cumpre ao homem pensar e exercitar-se
enquanto viva: em saber bem, em bem falar e em bem obrar.
Desterra
dos teus estudos a arrogância; não fiques presumido pelo que sabes, porque tudo
quando sabe o mais sábio homem do mundo nada é em comparação com o muito que
lhe falta saber. Mui escasso é, e muito obscuro e incerto, tudo quanto os
homens alcançam nesta vida; e os nossos entendimentos, detidos e presos neste
cárcere do corpo, estão oprimidos por grandíssima escuridão, trevas e
ignorância, e o corte ou fio do engenho é tão cego que não pode cortar, nem
passar-lhe de raspão sequer, coisa alguma.
Afora
isto, a arrogância faz com que não possas tirar proveito do estudo; creio que
terá havido muitos que não chegaram a sábios e que poderiam tê-lo sido se não
dessem a entender que já o eram.
Deveis
guardar-vos, também, de porfias, de competências, de menosprezar ou amesquinhar
o que os outros sabem ou não sabem, de desejar vanglórias. Para isto,
principalmente, servem os estudos: para nos ensinarem a fugir de tais vícios e
de outros semelhantes.
Juan Luis Vives, in "Introdução à Sabedoria"
Os
Convencidos da Vida
Todos
os dias os encontro. Evito-os. Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar
com eles. Já não me confrangem. Contam-me vitórias. Querem vencer, querem,
convencidos, convencer. Vençam lá, à vontade. Sobretudo, vençam sem me
chatear.
Mas
também os aturo por escrito. No livro, no jornal. Romancistas, poetas,
ensaístas, críticos (de cinema, meu Deus, de cinema!). Será que voltaram os
polígrafos? Voltaram, pois, e em força.
Convencidos
da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos (e por todos) os meios. Eles
estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras (as
obras justificam as manobras), de que podem ser, se ainda não são, os melhores,
os mais em vista.
Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador. Além de espectadores, o convencido precisa de irmãos-em-convencimento. Isolado, através de quem poderia continuar a convencer-se, a propagar-se?
Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador. Além de espectadores, o convencido precisa de irmãos-em-convencimento. Isolado, através de quem poderia continuar a convencer-se, a propagar-se?
(...)
No corre-que-corre, o convencido da vida não é um vaidoso à toa. Ele é o
vaidoso que quer extrair da sua vaidade, que nunca é gratuita, todo o
rendimento possível. Nos negócios, na política, no jornalismo, nas letras, nas
artes. É tão capaz de aceitar uma condecoração como de rejeitá-la. Depende do
que, na circunstância, ele julgar que lhe será mais útil.
Para
quem o sabe observar, para quem tem a pachorra de lhe seguir a trajetória, o
convencido da vida farta-se de cometer «gaffes». Não importa: o caminho é em
frente e para cima. A pior das «gaffes», além daquelas, apenas formais, que
decorrem da sua ignorância de certos sinais ou etiquetas de casta, de classe, e
que o inculcam como um arrivista, um «parvenu», a pior das «gaffes» é o
convencido da vida julgar-se mais hábil manobrador do que qualquer outro.
Daí
que não seja tão raro como isso ver um convencido da vida fazer plof e descer,
liquidado, para as profundas. Se tiver raça, pôr-se-á, imediatamente, a
«refaire surface». Cá chegado, ei-lo a retomar, metamorfoseado ou não, o seu
propósito de se convencer da vida - da sua, claro - para de novo ser, com toda
a plenitude, o convencido da vida que, afinal... sempre foi.
Alexandre O'Neill, in "Uma Coisa em Forma de Assim"
A Adversidade é Essencial
Porquê espantar-nos que possa ser
vantajoso, por vezes mesmo desejável, expor-nos ao fogo, às feridas, à morte, à
prisão? Para o homem esbanjador a austeridade é um castigo, para o preguiçoso o
trabalho equivale a um suplício; ao efeminado toda a labuta causa dó, para o
indolente qualquer esforço é uma tortura: pela mesma ordem de ideias toda a atividade
de que nos sentimos incapazes se nos afigura dura e intolerável, esquecendo-nos
de que para muitos é uma autêntica tortura passar sem vinho ou acordar de
madrugada! Qualquer destas situações não é difícil por natureza, os homens é
que são moles e efeminados!
Para formar juízos de valor sobre as grandes questões há que ter uma grande alma, pois de outro modo atribuiremos às coisas um defeito que é apenas nosso, tal como objetos perfeitamente direitos nos parecem tortos e partidos ao meio quando os vemos metidos dentro de água. O que interessa não é o que vemos, mas o modo como o vemos; e no geral o espírito humano mostra-se cego para a verdade!
Para formar juízos de valor sobre as grandes questões há que ter uma grande alma, pois de outro modo atribuiremos às coisas um defeito que é apenas nosso, tal como objetos perfeitamente direitos nos parecem tortos e partidos ao meio quando os vemos metidos dentro de água. O que interessa não é o que vemos, mas o modo como o vemos; e no geral o espírito humano mostra-se cego para a verdade!
Indica-me um jovem ainda incorrupto e de
espírito alerta, e ele não hesitará em julgar mais afortunado o homem capaz de
suportar todo o peso da adversidade sem dobrar os ombros, o homem capaz de
alçar-se acima da fortuna. Não é proeza nenhuma manter a calma quando a
situação é tranquila; é admirável, pelo contrário, conservar o ânimo quando
todos se deixam abater, mantermo-nos em pé quando todos jazem por terra. O que
há de mal na tortura e em tudo o mais a que damos o nome de «adversidade»? Apenas
isto, segundo penso: o fato de nos abaixar, abater, humilhar o espírito. Ora
nada disto pode suceder ao homem sábio, o qual se mantém vertical seja qual for
o peso sobre os seus ombros. A um tal homem, coisa alguma deste mundo pode
humilhar; um tal homem a nada do que é inevitável se recusa. O sábio não se
lamenta se lhe acontecer algo daquilo a que a condição humana está sujeita.
Conhece as próprias forças, sabe que não vergará sob o peso. Com isto eu não
estou a colocar o sábio à parte do comum dos homens nem a julgá-lo inacessível
à dor como se de um penedo inacessível se tratasse. Apenas recordo que o sábio
é composto de duas partes: uma é irracional, e sensível, portanto, às feridas,
às chamas, à dor; a outra é racional, dotada de convicções inabaláveis,
inacessível ao medo, indomável. É nesta parte que reside o bem supremo para o
homem. Enquanto o seu bem próprio ainda está por preencher, o espírito do homem
pode resvalar na incerteza, mas desde o momento em que atinge a perfeição
adquire para sempre a estabilidade total.
Sêneca, in 'Cartas a Lucílio'
quinta-feira, abril 30, 2015
quarta-feira, abril 29, 2015
sexta-feira, fevereiro 27, 2015
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