terça-feira, outubro 26, 2010



Ignoto Deo


D. D. D.

Creio em Ti, Deus; a fé viva
De minha alma a Ti se eleva.
És: - o que és não sei. Deriva
Meu ser do Teu: luz... e treva,
Em que - indistintas! - se envolve
Este espírito agitado,
De Ti vem, a Ti devolve.
O Nada, a que foi roubado
Pelo sopro criador
Tudo o mais, o há-de tragar.
Só vive do eterno ardor
O que está sempre a aspirar
Ao infinito donde veio.
Beleza és Tu, luz és Tu,
Verdade és Tu só. Não creio
Senão em Ti; o olho nu
Do homem não vê na Terra
Mais que a dúvida, a incerteza,
A forma que engana e erra.
Essência! a real beleza,
O puro amor - o prazer
Que não fatiga e não gasta...
Só por Ti os pode ver
O que, inspirado, se afasta,
Ignoto Deo, das ronceiras,
Vulgares turbas: despidos
Das coisas vãs e grosseiras
Sua alma, razão, sentidos,
A Ti se dão, em Ti vida,
E por Ti vida têm. Eu, consagrado
A Teu altar, me prostro e a combatida
Existência aqui ponho, aqui votado
Fica este livro - confissão sincera
Da alma que a ti voou e em ti só espera.


Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'

segunda-feira, outubro 25, 2010


Um Anjo à vista

Teus pés na lama, a pele suja, a tua face escura,
Olha só humano, que penosa e nervosa condição!
A dúvida te afoga, juntamente com tua falta de convicção na tua vida futura,
Para de sofrer: Vontade, necessidade ou percepção,
Para lutar, falar e pensar nessa agrura,
Nenhum Anjo, não!

Teus Deuses e Deusas? Santos e encantos? São brinquedos de tu madre e dos teus padres.
Verdade, mentira? Tudo é relativo! TUDO e NADA, diz
Ó cientista. Querem que tu ladres
Como o teu Cão... não que rujas como um Leão ... E por que não? Servis,
Ambos, e o amor-instinto os faz compadres.
Mas que vida infeliz!

Tua carniça e carne envenenada estremeceram de ver-se
Um torrão, pedaço atirado pela chance,
Do Barro Universal; sem alicerce,
Sofrendo, se debatendo, e para quê? Pois que alcance
Dá o acaso e este barro a contorcer-se?
Mas que tolo romance!

Todas as Almas são, eternamente;
Cada uma única, singular, individual, ultimal.
Perfeita; cada faz-se um Véu da Mente
E carne, e assim celebra o seu bridal
Com outra Gêmea Máscara que sente
Amar de amor lustral.

Alguns, embriagados com seu sonho,
Não querem que ele finde, e se confundem
Com o jogo de sombras enfadonho.
Um astro então que chame os que se afundem
Na ilusão, e eles brilham no risonho
Lago da vida e fundem...

Tudo que começou não terá fim;
O Universo perdura porque É.
Portanto, Faze o que tu queres; sim
Todo homem e toda mulher são Anjos.
Ninguém morreu; Todos ainda vivem! Assim,
Quebra os grilhões e solte as amarras! De pé!

Ao homo sapiens venho, como número de um homem
Meu número XIII, Anjo de Luz; enrista
A Besta cuja Lei é Amor; pois tomem
Meu Amor sob vontade e vejam! - Crista
De Sol interna e não externa!... Olhe Mulher! Veja Homem!
Eis um Anjo à vista!


O Verme

Existe uma flor que encerra
Celeste orvalho e perfume.
Plantou-a em fecunda terra
Mão benéfica de um nume.

Um verme asqueroso e feio,
Gerado em lodo mortal,
Busca esta flor virginal
E vai dormir-lhe no seio.

Morde, sangra, rasga e mina,
Suga-lhe a vida e o alento;
A flor o cálix inclina;
As folhas, leva-as o vento,

Depois, nem resta o perfume
Nos ares da solidão...
Esta flor é o coração,
Aquele verme o ciúme.

Machado de Assis, in 'Falenas'

domingo, outubro 24, 2010


OCTOXXV

Sou um pântano escuro, inavegável, quieto,
Sem vida, sem amor, sem vibrações, sem lutas,
Trago dentro de mim um coração abjeto,
Torpe como o lençol das velhas prostitutas.

O spleen, dominador, vampírico, secreto,
Roeu-me da consciência as fibras impolutas.
Sou um pântano escuro, inavegável, quieto,
Como a hedionda paz das trevas absolutas...

Se esgotei os sonhos do imprevisto,
Se já não posso finalmente ter as sensações intensas agudas
Da virtude e do mal, por que é que ainda existo?

Sinto-me naufragar no horror das trevas mudas...
Quem me dera gemer no teu Calvário, ó Cristo!
Quem me dera sentir o teu remorso, ó Judas!


Noite Muda-Tenebrosa

Ó noite, ó noite, ó muda-tenebrosa!
Tu que lançaste o pecado
Sobre esta carne pútreda, asquerosa,
Envolve-a no teu manto constelado,
Ó noite, ó noite, ó muda-tenebrosa

No escuro observo os segredos infamantes
Dos crimes ensanguentados
Segredos que são guardados
Como se guardam diamantes;

Vejo os sonhos maus invisíveis,
Os desejos subterrâneos,
Os monstros incoercíveis
Que habitam nos nossos crânios;

As vesgas concupisciências
Atrozes, brutas, carnais,
E forte como as essências
E duras como os cristais;

Os pensamentos obscenos,
Os crimes dos homens sérios,
As tragédias dos venenos
E as farsas dos adultérios;


As mentiras, as traições
As fundas hipocrisias,
As lepras dos corações
E os vermes das fantasias;

Tudo isto, ó pessoas que no momento me parecem um padre,
Foi parar nos teus ouvidos,
Esgotos apodrecidos
Do enxurro da humanidade.

Gente de faces sanguíneas,
O ventre ignóbil, rotundo,
Vai contar as ignomínias
Que viste por este mundo
às larvas negras, impuras
Para quem as sepulturas
Não têm portas,
Ás larvas frias que são
A alma da podridão,
A vida das coisas mortas.


Ó noite, ó noite, ó muda-tenebrosa!
Vou contando de minuto em minuto, de hora em hora,
Não sei se fico ou vou embora!

Quanto mais imerso
neste contexto sombrio,
mais detesto,
mais calafrio.

Ó noite, ó noite, ó muda-tenebrosa!


terça-feira, outubro 19, 2010


A MORTE

Como o homem conhece mal a morte que ele teme
quando diz que o surpreende!
A morte nasce com ele, e sem cessar lhe exige
um tributo contra o qual protesta em vão o orgulho humano.
O homem começa a morrer muito antes da morte,
e morre aos poucos, imperceptivelmente.
O nome da morte que damos à última hora,
nada mais é do que o derradeiro golpe.

LA MORT

Que l'homme connoît peu la mort qu'il appréhende
quand il dit qu'elle le surprend!
Elle naît avec lui, sans cesse lui demand
un tribut dont en vain son orgueil se défend.
Il commence à mourir longtemps avant qu'il meure,
il périt en détail imperceptiblement;
le nom de mort qu'on donne à notre derniére heure
n'en est que l'acomplissement.


PRIMAVERA

A bela primavera faz nascer
tantos amores, quantas são as flores.
Tremei, tremei, jovens corações.
Mal começa a aparecer,
ela faz cessar as friezas;
mas a s doçuras que contém
caro vos custarão, talvez.
Tremei, tremei, jovens corações,
a bela primavera faz nascer
tantos amores, quantas são as flores.



PRINTEMPS

L'aimable printemps fait nâitre
autant d'amours que de fleurs.
Tremblez, tremblez, jeunes coeurs.
Dis qu'il commence à paroître,
it fait cesser les froideurs;
mais ce qu'il a de douceurs
vous coûtera cher peut-être.
Tremblez, tremblez, jeunes coeurs,
l'aimable printemps fait nâitre
autant d'amours que de fleurs.




quinta-feira, setembro 30, 2010


BLACK ANGEL


Everybody has a dark side…
I’m that dark side…
I’m Black Angel…!

I’m a mix of their fears
Hopes, dreams, hate, love
Innocence, guilt…
I’m their worst nightmare
Their best help
Their unbelievable salvation
I’m an Angel
I’m the darkness on a larger scale

And flying
Flying really high in the sky...
Where my dark wings are mixed up with the dark clouds...
I find myself
I find my own salvation
Although I’ve any…

Loneliness is always with me
I’m unique…
And nobody wants to change that
To change me…

So my path is this…
I cry for everybody else’s problems
And not for mine
Cause like that I can forget mine…
And be myself…
For ever lonely
For ever me
For ever… Black Angel…!

terça-feira, setembro 28, 2010


Eu

Até agora eu não me conhecia,
julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.

Mas que eu não era Eu não o sabia
mesmo que o soubesse, o não dissera...
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim... e não me via!

Andava a procurar-me - pobre louca!-
E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca!

E esta ânsia de viver, que nada acalma,
E a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma!

Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"

sexta-feira, setembro 24, 2010


TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim

almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

Ferreira Gullar

segunda-feira, setembro 13, 2010


Nuvem Passageira

Eu sou nuvem passageira
Que com o vento se vai
Eu sou como um cristal bonito
Que se quebra quando cai


Não adianta escrever meu nome numa pedra
Pois essa pedra em pó vai se transformar
Você não vê que a vida corre contra o tempo
Sou um castelo de areia na beira do mar

A lua cheia convida para um longo beijo
Mas o relógio te cobra o dia de amanhã
Estou sozinho, perdido e louco no meu leito
E a namorada analisada por sobre o divã

Por isso agora o que eu quero é dançar na chuva
Não quero nem saber de me fazer ou me matar
Eu vou deixar em dia a vida e a minha energia
Sou um castelo de areia na beira do mar.


Hermes Aquino

terça-feira, agosto 24, 2010


"O que muito viaja aumenta a sua sagacidade. Muita coisa vi nas minhas viagens, o meu conhecimento é maior do que as minhas palavras."

Eclesiástico 34,10-11


"Viajar é nascer e morrer a todo o instante."


Victor Hugo

sexta-feira, julho 02, 2010


Pergunto-te Onde se Acha a Minha Vida

Pergunto-te onde se acha a minha vida.
Em que dia fui eu. Que hora existiu formada
de uma verdade minha bem possuída.

Vão-se as minhas perguntas aos depósitos do nada.

E a quem é que pergunto? Em quem penso, iludida
por esperanças hereditárias? E de cada
pergunta minha vai nascendo a sombra imensa
que envolve a posição dos olhos de quem pensa.

Já não sei mais a diferença
de ti, de mim, da coisa perguntada,
do silêncio da coisa irrespondida.


Cecília Meireles




ÍSIS

E diz-me a desconhecida:
"Mais depressa! Mais depressa!
"Que eu vou te levar a vida! . . .

"Finaliza! Recomeça!
"Transpõe glórias e pecados! . . ."
Eu não sei que voz seja essa

Nos meus ouvidos magoados:
Mas guardo a angústia e a certeza
De ter os dias contados . . .

Rolo, assim, na correnteza
Da sorte que se acelera,
Entre margens de tristeza,

Sem palácios de quimera,
Sem paisagens de ventura,
Sem nada de primavera . . .

Lá vou, pela noite escura,
Pela noite de segredo,
Como um rio de loucura . . .

Tudo em volta sente medo . . .
E eu passo desiludida,
Porque sei que morro cedo . . .

Lá me vou, sem despedida . . .
Às vezes, quem vai, regressa . . .
E diz-me a Desconhecida:

"Mais depressa" Mais depressa" . . .

Cecília Meireles

quinta-feira, julho 01, 2010


O TEMPO

"A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará."

Mário Quintana


OS DEGRAUS

Não desças os degraus do sonho

Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...

Mário Quintana -
"Baú dos Espantos"


Se eu fosse um padre



Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
- muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,


não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,


Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!


Porque a poesia purifica a alma
... a um belo poema - ainda que de Deus se aparte -
um belo poema sempre leva a Deus!

Mário Quintana

"Perder-se também é caminho."

Clarice Lispector



'' Não me dêem fórmulas certas, por que eu não espero acertar sempre. Não me mostrem o que esperam de mim, por que vou seguir meu coração. Não me façam ser quem não sou. Não me convidem a ser igual, por que sinceramente eu sou diferente. Não sei amar pela metade. Não sei viver de mentira. Não sei voar de pés no chão. Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma para sempre."

Clarice Lispector