segunda-feira, julho 27, 2015


A Adversidade é Essencial

     Porquê espantar-nos que possa ser vantajoso, por vezes mesmo desejável, expor-nos ao fogo, às feridas, à morte, à prisão? Para o homem esbanjador a austeridade é um castigo, para o preguiçoso o trabalho equivale a um suplício; ao efeminado toda a labuta causa dó, para o indolente qualquer esforço é uma tortura: pela mesma ordem de ideias toda a atividade de que nos sentimos incapazes se nos afigura dura e intolerável, esquecendo-nos de que para muitos é uma autêntica tortura passar sem vinho ou acordar de madrugada! Qualquer destas situações não é difícil por natureza, os homens é que são moles e efeminados!
     Para formar juízos de valor sobre as grandes questões há que ter uma grande alma, pois de outro modo atribuiremos às coisas um defeito que é apenas nosso, tal como objetos perfeitamente direitos nos parecem tortos e partidos ao meio quando os vemos metidos dentro de água. O que interessa não é o que vemos, mas o modo como o vemos; e no geral o espírito humano mostra-se cego para a verdade!
     Indica-me um jovem ainda incorrupto e de espírito alerta, e ele não hesitará em julgar mais afortunado o homem capaz de suportar todo o peso da adversidade sem dobrar os ombros, o homem capaz de alçar-se acima da fortuna. Não é proeza nenhuma manter a calma quando a situação é tranquila; é admirável, pelo contrário, conservar o ânimo quando todos se deixam abater, mantermo-nos em pé quando todos jazem por terra. O que há de mal na tortura e em tudo o mais a que damos o nome de «adversidade»? Apenas isto, segundo penso: o fato de nos abaixar, abater, humilhar o espírito. Ora nada disto pode suceder ao homem sábio, o qual se mantém vertical seja qual for o peso sobre os seus ombros. A um tal homem, coisa alguma deste mundo pode humilhar; um tal homem a nada do que é inevitável se recusa. O sábio não se lamenta se lhe acontecer algo daquilo a que a condição humana está sujeita. Conhece as próprias forças, sabe que não vergará sob o peso. Com isto eu não estou a colocar o sábio à parte do comum dos homens nem a julgá-lo inacessível à dor como se de um penedo inacessível se tratasse. Apenas recordo que o sábio é composto de duas partes: uma é irracional, e sensível, portanto, às feridas, às chamas, à dor; a outra é racional, dotada de convicções inabaláveis, inacessível ao medo, indomável. É nesta parte que reside o bem supremo para o homem. Enquanto o seu bem próprio ainda está por preencher, o espírito do homem pode resvalar na incerteza, mas desde o momento em que atinge a perfeição adquire para sempre a estabilidade total. 

Sêneca, in 'Cartas a Lucílio'

quarta-feira, abril 29, 2015

segunda-feira, fevereiro 09, 2015



Primal Scream (Live Berlin Festival) - 2011






Street Art/Graffiti - PF/RS.








B&W - (UPF - Universidade de Passo Fundo/RS.)





DINOSAUR JR. (IN SESSION)



quinta-feira, janeiro 29, 2015



STREET ART/GRAFFITI/BARCELONA/SPAIN.


terça-feira, janeiro 27, 2015


Caetano Veloso e Jorge Mautner - Todo Errado



SEBASTIÃO SALGADO




A EPIFANIA DE SEPÉ


Em sendo chegado o tempo
de um novo evangelho
e velhas revelações
da renovação dos mundos
na evolução do Universo.

Sepé vem do Céu,
sem trombetas e sem pompa,
para restaurar a humanidade
e aniquilar a maldade,
para ensinar outra vez
os preceitos rituais,
as regras da convivência
e as normas de conduta,
- a justiça e as leis
das regiões siderais,
a arte de bem viver,
de se entender,
a fórmula da justiça,
da alegria, harmonia e da paz.

Sepé, no entanto
viu que o povo sofria,
já não mais sorria,
carente de conhecimento,
alegria nunca mais,
coitados! vivendo como animais.

Cheio de aporrinhação e
farto de ouvir uis e ais ...
Sepé meditou
sobre o seu nome, destino e missão:
boca silente, reticente,
que jamais disse jamais.


Sepé se enfurece
e rasga sem dó nem pena
a plumagem de metáforas
da linguagem angelical,
escangalha o figurino,
transgride os protocolos
e códigos celestinos,
espezinha os floreios
da retórica divina.


Torna-se o linguarudo,
desbocado,
boquejante,
boquirroto,
boquinegro,
bocudo.


Sepé filosofa:
- Esta vida é um buraco
do buraco todos vêm,
ao buraco todos vão.
E não escapa ninguém.


Buraco que come,
buraco que defeca,
buraco que vê,
buraco que ouve,
buraco que fala,
buraco que pensa,
buraco que anda,
buraco que sente,
buraco que ama,
buraco que sofre,
buraco que chora,
buraco que sonha...


Sepé desembucha,
escancara a bocarra,
solta a língua, mostra os dentes, rasga o verbo,
revela, desvela, escarra, esparra.


Clama e proclama
a sua epifania,
conta os segredos,
desvenda os mistérios ...


- desencanta o mal.


Boca interditada
por leis e editais,
boca lacrada
por lacres morais,
boca selada
por falar demais,
boca atarraxada
por conveniências,
já não serei mais.

Sendo mister acabar
com a farsa milenar,

derrotar a esfinge,
matar a charada,
decifrar o enigma,
quebrar o encanto,
vencer o dragão,
enganar o diabo,
desafiar os deuses,
dizer o indizível,
com todas as letras,

o vazio dos místicos,
o vácuo dos cientistas,
o abismo teológico,
o nada dos paspalhões,
o ocão insofismável,

a coisa intangível,
a coisa imponderável,
a coisa incognoscível,
a coisa inefável,
a coisa inominável,
a coisa abominável,
a coisa numinosa,
a coisa secreta,
a coisa misteriosa,
a coisa terrível,
a coisa maldita,
a coisa vergonhosa,


a coisa em si.