segunda-feira, setembro 24, 2018






"Durante a nossa vida causamos transtornos na vida de muitas pessoas, porque somos imperfeitos.


Nas esquinas da vida, pronunciamos palavras inadequadas, falamos sem necessidade, incomodamos.


Nas relações mais próximas, agredimos sem intenção ou intencionalmente. Mas agredimos.

Não respeitamos o tempo do outro, a história do outro.

Parece que o mundo gira em torno dos nossos desejos e o outro é apenas um detalhe.


E, assim, vamos causando transtornos.

Esses tantos transtornos mostram que não estamos prontos, mas em construção.

Tijolo a tijolo, o templo da nossa história vai ganhando forma.

O outro também está em construção e também nos causa transtornos.

E, às vezes, um tijolo cai e nos machuca.

Outras vezes, é a cal ou o cimento que sujam nosso rosto.


E quando não é um, é o outro.



E o tempo todo nós temos que nos limpar e cuidar das feridas, assim como os outros que convivem conosco também têm de fazer.


Os erros dos outros,

os meus erros.
Os meus erros,
os erros dos outros.


Esta é uma conclusão essencial:

Todas as pessoas erram.

A partir dessa conclusão, chegamos a uma necessidade humana e cristã: o perdão.


Perdoar é cuidar das feridas e sujeiras.


É compreender que os transtornos são muitas vezes involuntários.


Que os erros dos outros são semelhantes aos meus erros e que, como caminhantes de uma jornada, é preciso olhar adiante.


Se nos preocupamos com o que passou, com a poeira, com o tijolo caído, o horizonte deixará de ser contemplado. E será um desperdício.


O convite que faço é que você experimente a beleza do perdão. 



É um banho na alma! Deixa leve!


Se eu errei,

se eu o magoei,
se eu o julguei mal,
desculpe-me por todos
esses transtornos…



Estou em construção!”


Jorge Mario Bergoglio (PAPA FRANCISCO)





Albert Camus

Os deuses condenaram Sísifo a rolar incessantemente uma rocha até o cume de uma montanha de onde a pedra se precipitava por seu próprio peso. Eles pensaram com alguma razão que não há punição mais terrível que o trabalho inútil e sem esperança.

A se crer em Homero, Sísifo foi o mais sábio e o mais prudente dos mortais. Segundo outra versão no entanto, ele se inclinava ao ofício de bandido. Eu não vejo contradição. As opiniões diferem sobre os motivos que lhe valeram ser o trabalhador inútil dos infernos. Reprovam-lhe antes de tudo alguma leviandade para com os deuses. Ele entregou seus segredos. Egina, filha de Asopo, foi abduzida por Júpiter. O pai, espantado com esta desaparição, se lamentou a Sísifo. Ele, que sabia da abdução, ofereceu-se para instruir Asopo, sob a condição de que este doasse água à cidadela de Corinto. Aos trovões celestes, ele preferiu a benção da água. Ele foi punido nos infernos. Homero nos conta ainda que Sísifo acorrentou a Morte. Plutão não pôde suportar o espetáculo de seu império deserto e silencioso. Ele despachou o deus da guerra que libertou a Morte das mãos de seu conquistador.

Diz-se ainda que Sísifo, prestes a morrer, quis imprudentemente testar o amor de sua mulher. Ele ordenou que ela abandonasse seu corpo sem sepultura em meio à praça pública. Sísifo se viu nos infernos. E lá, irritado com uma obediência tão contrária ao amor humano, obteve de Plutão a permissão de retornar à sua terra para castigar sua mulher. Mas quando uma vez mais reviu o rosto deste mundo, saboreou a água e o sol, as pedras quentes e o mar, já não quis retornar à sombra infernal. Os chamados, as cóleras e as advertências não lhe fizeram nada. Por muitos anos ele viveu ante a curva de um golfo, o mar cintilante e os sorrisos da terra. Foi preciso um basta dos deuses. Mercúrio veio e agarrou o audacioso pelo pescoço e, roubando-o às suas alegrias, o conduziu à força aos infernos onde sua rocha estava pronta.

É o suficiente para entender que Sísifo é o herói absurdo. Ele o é tanto por suas paixões quanto por seu tormento. Seu desprezo pelos deuses, seu ódio à morte e sua paixão pela vida, lhe valeram este suplício indizível onde todo o ser é empenhado para não se conquistar nada. É o preço que é preciso pagar pelas paixões desta terra. Não temos notícia de Sísifo nos infernos. Os mitos são feitos para que a imaginação os anime. Neste só o que vemos é todo o esforço de um corpo tensionado a fim de erguer uma enorme pedra, rolá-la e ajudá-la a escalar uma ladeira cem vezes recomeçada; vemos seu rosto crispado, a face colada contra a pedra, o auxílio de um ombro que recebe a massa coberta de argila, de um pé que a calça, a retomada a duras penas, a certeza totalmente humana de duas mãos repletas de terra. No pico deste esforço mensurado pelo espaço sem céu e pelo tempo sem profundidade, o objetivo é atingido. Sísifo observa então sua pedra despencar em alguns instantes rumo ao mundo inferior de onde será preciso reerguê-la ao topo. Ele desce à planície.

É durante este retorno, esta pausa, que Sísifo me interessa. Um rosto que sofre tão perto das pedras já é pedra ele mesmo! Eu vejo este homem retomando a descida num passo pesado porém igual rumo ao tormento do qual não conhecerá fim. Esta hora, que é como uma respiração e cujo retorno é tão certo quanto o do seu suplício, esta hora é a hora da consciência. Em cada um destes instantes, quando ele deixa o cume e se afunda pouco a pouco rumo ao covil dos deuses, ele é superior a seu destino. Ele é mais forte que sua rocha.

Se este mito é trágico, é porque seu herói é consciente. Onde estaria com efeito sua pena se a cada passo a esperança de sucesso o sustentasse? O operário dos nossos tempos trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas e este destino não é menos absurdo. Mas ele só é trágico nos raros momentos nos quais se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhecia toda a extensão de sua miserável condição: é nela que pensa em sua descida. A clarividência que deveria fazer o seu tormento consuma no mesmo instante a sua vitória. Não há destino que não se supere pelo desprezo.

Se em certos dias a descida é feita na dor, ela também pode ser feita na alegria. Esta palavra não é exagerada. Eu imagino ainda Sísifo retornando à sua rocha, e a dor estava lá desde o princípio. Quando a lembrança das imagens da terra se torna forte demais, quando o chamado da alegria oprime demais, então a tristeza desponta no coração do homem: é a vitória da rocha, é a própria rocha. A imensa agonia é pesada demais para ser suportada. São nossas noites de Getsêmani. Mas as verdades esmagadoras perecem ao serem reconhecidas. Assim, de início, Édipo obedece o destino sem saber. A partir do momento em que o sabe, sua tragédia começa. Mas no mesmo instante, cego e desesperado, ele reconhece que o único laço que o liga ao mundo é a mão fresca de uma menina. Uma fala desmedida então ressoa: “Apesar de tantas provações, minha idade avançada e a grandeza de minha alma me fazem julgar que tudo está bem” (…).

Não se descobre o absurdo sem ter sido tentado a escrever um manual qualquer de felicidade. “Como assim, por caminhos tão estreitos…?” Mas só há um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta do absurdo. Por vezes é o sentimento do absurdo que nasce da felicidade. “Eu julgo que tudo está bem”, diz Édipo, e esta fala é sagrada. Ela ressoa no universo feroz e limitado do homem. Ela ensina que nem tudo está ou foi esgotado. Ela expulsa deste mundo um deus que nele entrou com a insatisfação e o gosto pelas dores inúteis. Ela faz do destino um negócio do homem, que deve ser regulado pelos homens.

Toda a alegria silenciosa de Sísifo está aí. Seu destino lhe pertence. Sua rocha é sua coisa. Do mesmo modo, o homem absurdo, ao contemplar o seu tormento, cala todos os ídolos. No universo repentinamente silenciado, uma multidão de pequenas vozes maravilhadas se eleva da terra. Clamores inconscientes e secretos, convites de todos os rostos, eles são a contrapartida necessária e o preço da vitória. Não há sol sem sombra, e é preciso conhecer a noite. O homem absurdo diz sim, e seu esforço não acabará jamais. Se ele tem um destino pessoal, não tem nenhum destino superior ou ao menos só tem um destino que julga fatal e desprezível. Quanto ao resto, ele se sabe senhor dos seus dias. Neste instante sutil no qual o homem retorna à sua vida, Sísifo, voltando à sua rocha, contempla esta sequência de ações sem nexo que se tornam seu destino, criado por ele, unido sob o olhar de sua memória, e logo selado pela morte. Assim, convencido da origem totalmente humana de tudo aquilo que é humano, cego que deseja ver e que sabe que a noite não tem fim, ele caminha todos os dias. A rocha rola mais uma vez.

Eu deixo Sísifo ao pé da montanha! Sempre reencontramos seu fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e ergue as rochas. Também ele julga que tudo está bem. Este universo, doravante sem senhor, não lhe parece nem estéril nem fútil. Cada um dos grãos desta pedra, cada lasca mineral desta montanha plena de noite, forma um mundo só dele. A própria luta rumo ao topo basta para preencher o coração de um homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.


sexta-feira, setembro 21, 2018



Diz uma parábola judaica que certo dia a mentira e a verdade se encontraram.

A mentira disse para a verdade:

- Bom dia, dona Verdade.

E a verdade foi conferir se realmente era um bom dia. Olhou para o alto, não viu nuvens de chuva, vários pássaros cantavam e vendo que realmente era um bom dia, respondeu para a mentira:

- Bom dia, dona Mentira.

- Está muito calor hoje, disse a mentira.

E a verdade vendo que a mentira falava a verdade, relaxou.

A mentira então convidou a verdade para se banhar no rio. Despiu-se de suas vestes, pulou na água e disse:

-Venha dona Verdade, a água está uma delícia.

E assim que a verdade sem duvidar da mentira tirou suas vestes e mergulhou, a mentira saiu da água e vestiu-se com as roupas da verdade e foi embora.

A verdade por sua vez recusou-se a vestir-se com as vestes da mentira e por não ter do que se envergonhar, saiu nua a caminhar na rua.

E aos olhos de outras pessoas era mais fácil aceitar a mentira vestida de verdade, do que a verdade nua e crua.

Texto adaptado do original: "La Tristeza y La Furia" do autor Jorge Bucay, no livro "Cuentos para Pensar"

quarta-feira, setembro 12, 2018








(Retirado do livro "Pequenas Epifanias")

Caio Fernando Abreu


Tenho trabalhado tanto, mas sempre penso em você. Mais de tardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira assenta e com mais força quando a noite avança. Não são pensamentos escuros, embora noturnos…

Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você. Eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende?

Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro. Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu.

Mas se você tivesse ficado, teria sido diferente? 

Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais — por que ir em frente?

Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia — qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido.

Tinha terminado, então. Porque a gente, alguma coisa dentro da gente, sempre sabe exatamente quando termina.

Mas de tudo isso, me ficaram coisas tão boas. Uma lembrança boa de você, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. De não morrer, de não sufocar, de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e então não repetir nenhum comportamento. Ser novo.

Mesmo que a gente se perca, não importa. Que tenha se transformado em passado antes de virar futuro. Mas que seja bom o que vier, para você, para mim. Te escrevo, enfim, me ocorre agora, porque nem você nem eu somos descartáveis.

... E eu acho que é por isso que te escrevo, para cuidar de ti, para cuidar de mim – para não querer, violentamente não querer de maneira alguma ficar na sua memória, seu coração, sua cabeça, como uma sombra escura.



‘Todas as horas do fim’


Documentário sobre Torquato Neto lança luz sobre produção cultural e a angústia existencial do artista.





Sentado ao lado de Gal Costa, Torquato Neto está na capa do disco "Tropicália - ou Panis et Circensis", um dos mais icônicos da música brasileira, e pouco mais se sabe dele. Quatro anos depois de lançado o disco, um dos letristas mais importantes do movimento tropicalista se matou, no dia seguinte de seu aniversário de 28 anos. Entrou no banheiro de casa, ligou o gás e esperou a morte, enquanto a esposa Ana e o filho Thiago dormiam nos cômodos ao lado.

Passados 45 anos da morte de Torquato Neto, os diretores Marcus Fernando e Eduardo Ades lançam "Torquato Neto - Todas as horas do fim". Mesclando entrevistas com as poucas imagens disponíveis do poeta, os dois viram-se diante de um impasse, ao perceber que o protagonista Torquato estava se tornando assunto na boca dos entrevistados. A solução para amarrar o filme e continuar reverberando as ideias do poeta veio de um dos seus grandes temas de interesse - o cinema.

No documentário, os diretores partem de um material audiovisual escasso para preencher essas lacunas e redimensionar seu personagem. Dele existe um único registro de voz, que se soma e se multiplica em raras aparições como em Nosferatu no Brasil, de Ivan Cardoso, em que encarna um vampiro torto e libertino em filme mudo rodado em Super 8.

Uma das saídas foi emprestar a ele a voz do ator Jesuíta Barbosa. A outra, provocar uma imersão na cabeça do artista a partir das obras e filmes que a povoavam. As imagens do cinema novo e do cinema marginal cobrem até mesmo a fala de amigos e parceiros da obra, em depoimentos exibidos de maneira pouco convencional. Caretice, afinal, não combinaria com o protagonista.

É sobre a obra, e não exatamente sobre a vida – ou pelo menos até onde é possível aparar as intersecções entre elas – que o documentário se dedica.

Aos poucos, e nas horas e dias seguintes após a sessão, passamos a tropeçar em Torquato Neto nas lacunas até então despercebidas: na música que cantamos sem atentar para a autoria, no esforço de tirar a poesia do registro em papel e dar a ela uma outra dimensão, ou por finalmente encontrar nele um lugar de destaque de uma cena artística que se desenhava e ainda se desenha.

Como resumiu o amigo Victor Costa ao fim da sessão, em 28 anos Torquato se projetou não apenas como um artista, mas como um agitador cultural que compreendeu e foi absorvido pelo que, muito em breve, seria hoje o que conhecemos como cena audiovisual, na qual cabe muito daquilo que ele já demonstrava.

Letras e palavras flutuando na tela, escrita transformada em música e artes visuais, o corpo como expressão de linguagem e até em artigo de jornal diário para recorte. Algo nele e em seus contemporâneos contrastava com a imagem que guardamos dos poetas que o antecederam, como Drummond, João Cabral e Manoel Bandeira, burocratas bem comportados que se libertava do terno e da gravata usando tinta e papel.

A poesia de Torquato, ainda a ser descoberta pelo grande público, é a poesia libertada deste formato. Uma contradição, portanto, que ele não pôde cantá-la – um talento que, dizem, jamais alcançou.

Nessa poesia o artista parece dar sentido ao próprio corpo, esgotado precocemente. O que sabemos? Que, para ele, a exemplo de muitos artistas mortos precocemente, não há o que se fazer por aqui quando a obra está acabada.

Mais do que não poder dizer, a angústia do artista é não ter mais o que dizer, ou fabular, ou inventar, ou reinventar. Mas quando a obra se esgota? Como identificar seu epílogo? Sabemos?

De todas as lacunas, esta é a única que não podemos alcançar.

O que faria agora, já avô (soube que seu neto assistiu ao filme diversas vezes), se tivesse acompanhado os colegas Gil, Caetano, Edu Lobo, Gal, Jards e pudesse resumir em poesia o país que nasceu e morreu com ele em 1972. Um país que, como ele, parece agora viver tranquilamente todas as horas do fim.


Quem vem do interior (na cidade onde nasci sobram-nos shoppings, farmácias e barbearias, mas as livrarias ou desapareceram ou flertam com a falência diariamente) provavelmente vai se identificar com o protagonista que, leitor que gosta de andar para absorver o que leu, é confrontado o tempo pela brutalidade do entorno que a todo momento questiona: para que isso me serve?





MÚSCULOS E FÚRIA


Documentário ilumina trajetória faiscante do jornalista Tarso de Castro

Gaúcho de Passo Fundo fez história no Rio de Janeiro à frente do semanário O Pasquim e foi um dos grandes personagens da imprensa e da cultura brasileiras no Brasil sob ditadura militar




Força da natureza. Divisor de águas. Gênio. Visionário. Superlativos transbordam no documentário A Vida Extra-Ordinária de Tarso de Castro para dimensionar a importância do jornalista gaúcho que saiu de Passo Fundo e consagrou-se no Rio de Janeiro jogando gasolina na fogueira das vaidades que iluminava a imprensa e a vida cultural do Brasil sob a ditadura militar. Usualmente fartos em tributos laudatórios, elogios de tal monta vestem muito bem no biografado pelos diretores Leo Garcia e Zeca Brito. E são contrabalançados por aqueles (poucos, diga-se) que lembram de um Tarso sem caráter, irresponsável, mulherengo, alcoolista e perdulário, entre outras impressões que embaralham o homem e o mito que deixou marcas em amigos, inimigos, afetos e amores.

Tarso de Castro morreu em 1991, aos 49 anos, vitimado pela cirrose hepática. Das suas três grandes paixões destacadas no filme, a bebida foi a fatal. Com as outras duas, o jornalismo e as mulheres, viveu fortes emoções. À frente do semanário carioca O Pasquim, que fundou em 1969, Tarso cravou um marco no jornalismo independente reunindo a nata da escrita e do traço nacionais – entre outros, Paulo Francis (1930–1997), Sérgio Cabral, Millôr Fernandes, Ziraldo, Jaguar e o também gaúcho Luiz Carlos Maciel (1938–2017). A chamada patota do Pasquim desafiou, com humor, entrevistas antológicas, provocação e jornalismo puro sangue o período mais pesado da censura. Sobre as mulheres, Tarso enroscou-se com muitas beldades: da gaúcha Barbara Oppenheimer, com quem foi casado por quatro anos, à estrela americana Candice Bergen, passando pela diva tropical Leila Diniz.


Garcia e Brito criaram um dispositivo irreverente para retratar esse tipo nada convencional. Colocaram mais de 30 entrevistados, entre eles ex-parceiros de Pasquim e outras publicações lançadas por Tarso, amigos como Caetano Veloso, familiares e namoradas, a conversar entre si, por telefone e em mesa de bar. Brotam histórias saborosas sobre o “homem que não podia ficar velho”, que viveu e trabalhou com o pé no acelerador, despejando sobre a máquina de escrever, como dizia, 75 quilos de músculos e fúria...






quinta-feira, setembro 06, 2018


















quarta-feira, setembro 05, 2018